quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sentido


Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

— Paulo Leminski

Estando sempre em crise, dizia Zizek em mais uma de minhas leituras noturnas, você se torna indestrutível. Entre o virar de uma página e outra antes de dormir, a indagação era cada vez mais forte: o que escolher quando sair de casa: o par de asas ou a camisa de força? No aforismo seguinte, perdi-me na impossibilidade. Ora, se é preciso entender a lógica da dor, por que não começar sufocando a própria?
Os sentidos, passo-a-passo:

Primeiro: pego um pedaço de pano, a fim de fazer uma espécie de torniquete. Coloco-o em volta do peito e, entre o tecido e o coração, uma pedra de gelo retirada do copo de uísque.

Só se vê bem com o coração, lembra-me a menina leitora de oito anos que fui. Tenho propriedade suficiente para discordar disso hoje, embasamentos teóricos de gente importantíssima que ganha dinheiro só pra falar, veja bem. Mas não, preciso testar.

Segundo: alcanço um velho tampão de pirata, acessório provavelmente adquirido em mais uma dessas feiras inúteis que insisto em frequentar. Posiciono-o em cima do olho esquerdo.

Perco-me em mais uma página passada, que não me ajudou em nada. As sensações são uma mentira, lembrei-me da leitura anterior à corrente. Vivência simples, instantânea, permeada por armadilhas de equívocos incessantes. Minha tática é simples: sentir muito, até não sentir nada. Seria essa, porém, a forma mais absoluta de sentir? Preciso testar.

Terceiro: pego o copo de uísque e sinto-o por entre meus dedos. Com as duas mãos, arremesso-o de um lado para o outro.

Lembro-me do dia em que cortei todos os meus dedos ralando algumas cenouras para o jantar. Não foi bonito. O sangue escorria por entre os legumes crus depositados na pia e vazava até atingir o cano. Hoje acordei com a cara amassada. Pensei: seria isso o que chamam tato? Não sei, mas preciso tentar.

Quarto: tiro a casquinha do machucado no pulso; o sangue começa a escorrer, observo as gotas dançarem por cima de minha pele.

Interrompida por uma abrupta pausa no livro, que dava espaço para uma citação de mais um autor desconhecido, os sentidos voltam a me confundir. Até agora, nada resolvido. O som lá fora é um tilintar de freios bruscos, aceleração e alarmes. Achar que a noite é feita pra dormir só foi verdade até a invenção da luz elétrica. A noite é feita pra pensar, ou não pensar, conforme for o caso. O vento também fala: quem você está procurando? Só pode ser um perdido.

Quinto: atormentada, tapo os ouvidos com algodão e, ao mesmo tempo em que fecho os olhos, nada perpassa meus pensamentos. A leitura continua apesar dos percalços limitadores de sensações. Sinto o cheiro dos legumes queimando no fogão, mas não consigo mais me mover. Tento, em vão, lamber o sangue que ainda resta em meu pulso, mas qualquer movimento seria, agora, fatal. Permaneço imóvel, limitada: eu já não sinto nada. Os artifícios sufocadores das sensações começam a fazer cócegas.

Sexto: o gelo já está derretido... Corto o torniquete... Tiro o tapa olho... Tiro os algodões do ouvido... Limpo o sangue no braço...

Sem ti
Sentido
Sentir dor
Sem ti, dor

Levanto-me. É preciso desligar o fogo; é preciso, também, não morrer. Retorno ao quarto. Coloco Zizek em cima do criado mudo, abro Cioran para, em instantes, pegar no sono. Começo bem: “o limite de cada dor é uma dor maior”. Paro de ler. Vejo todos os objetos sufocantes jogados no chão do quarto. Eu mesma estou, também, bem próxima ao chão. Meus olhos vacilam e espiam mais uma costura de palavras no tecido: “no edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça”. E nem nas sensações, Cioran! Você sequer escreve sobre isso? Não há outra saída, é preciso seguir seu conselho. Durmo. E “que belo travesseiro é o caos”...

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