terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Kuro

Caí numa gank. Não consigo sair dessa trap que é o que sobrou dos restos da batalha. Um FPS resolveria, mas sou muito ruim de mira: acabaria dando um tiro no pé, assim como tenho feito todos os dias. Miro o corpo no reflexo da poça de sangue: combate, defesa, conquista e suporte... Repito todos os dias até ser PWND pelas minhas próprias emoções. Não sou tanker, sou lammer: trapaço e finjo, desvio a atenção: this is fine. Na verdade, o que quero e preciso é de um healer – e rápido. Quem dera eu ser cheater; isso eu deixo pra você, pois dói o mesmo tanto que doeria se fosse eu, ainda que os enganados tenham sido nós por nós. Mas você está AFK, away from here, away from all - e não escuta ninguém. Penso, por vezes, onde essa Journey estaria me levando. Seria para o Limbo? Pois é, nunca se sabe. Mas não quero ser seu lag, não quero feedar: nem por querer, nem por ser ruim nesse jogo. Desculpe se pensou, talvez, estar jogando uma versão demo comigo – e não tiro a possibilidade de ter sido isso mesmo -, mas, ainda que inacabada, disponibilizei todas as funções que pude. My mind is glitch, our life is hype. Hoje, penso que fazer desse jogo um multiplayer é o que tenha sido o erro, mas também não consigo deixar de pensar que fomos hackeados: não porque é mais fácil pensar isso, mas porque é, muito provavelmente, o que aconteceu. Eu culpo os trolls, eu culpo os NPCs... Tenho mais frags que terabytes: vou matando quem aparece por puro prazer. Eu, nintendista; você, camper (ainda que negue); nós, random player killers. Quero pensar que achamos o savepoint mais próximo por estarmos cansados demais: aqui, sim, podemos respirar um pouco mais e ir além. Brigamos: me dá a manete, me dá o controle, aperta o salvar, presta atenção na tela! Que nome dar pra isso, afinal? Esse PvP parece não sair mais do lugar. Dou start de novo, mas hoje em dia não tem mais password mágico pra voltar exatamente pro lugar onde estávamos; não tem como sair sem salvar pra, quem sabe, ignorar os erros no início da 4ª fase. Ou tem? Desculpe, mas como você já sabe, sou uma péssima jogadora, e esse chefão tá difícil demais de matar. Você quitou, eu quero continuar jogando, mas parece mesmo que nenhum de nós dois vai conseguir zerar esse jogo: a vida é um game, e o nosso tá over.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Intimidade

que tomem nota
intimidade é:

I

a mesma gaveta pras meias e retalhos
o mesmo lado da cama que
se confunde com
o outro lado

II

acordar sem dormir
comer sem ter fome
falar sem ter assunto
todos: com a boca fechada

III

o trato
o insensato
o velado revelado

IV

essência sem se entender
encontro no olhar
desencontrado

V

batida do coração
que (ex)pulsa
junto com
justo quando
os olhos estão em contato

VI

o não ser da questão
o corpo
a relação-ação

VII

é âmago
favor não confundir com amargo
(mas também arde)

VIII

reconhecer e se encontrar no outro
já sendo quem tu és
(e quem és tu?)

IX

é ser bem-vindo ao se encontrar
pela primeira ou pela última vez
com ninguém
com alguém

X

sentir
te conheço de algum lugar
de dentro de mim

XI

é não saber
não dar
nem ter
intimidade

XII

não classificá-la:
aconte(sê-la)