quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Criopreservação


O amor é sexualmente transmissível.
— Marçal Aquino


Ao longe, o rádio tocava if feels like I only go backwards, baby, every part of me says go ahead. Pedimos uma cerveja, dois copos e dois cigarros. I got my hopes up again, oh no, not again.

- Gosto de phrasal verbs com a preposição on - eu digo, após dar a última tragada.
- Por que? - ele pergunta, com a expressão de interesse mais genuína que já vi.
- Não sei, sempre me dão a ideia de que algo vai mudar. Ao contrário dos que tem up (que parecem que sempre vão te deixar pra cima e são a maior enganação), o on nunca te faz desistir ao se dar. Apesar disso, gosto quando up e on se juntam em composição.
- Don’t give up on me – ele diz.
- A poet in love is a match soaked in gasoline – respondo.
- Gosto de in, dentro, mas não tanto quanto gosto de on me – ele responde enquanto eu termino a cerveja, atônita.
- Um poeta apaixonado é um fósforo mergulhado na gasolina? – ele continua, traduzindo. – Acho que vi isso em algum lugar (procurando um poema pra te mandar). É bonito.
- É.

(Silêncio)

- O bar está fechando, você quer ir pra outro lugar? – ele pergunta, já pegando o dinheiro para pagar a conta. – Deixa que eu pago os cigarros. Varejo é sempre foda. Você paga duas cervejas e tá tudo certo.
- Tudo bem, mas prefiro ir pra casa. Você me acompanha até lá? - eu digo.
- Claro. De lá eu pego um táxi, então.

(Silêncio)

- Está frio, mas não quero colocar o casaco – eu digo, ele ri.
- É por causa da tatuagem, não é?
- É, como você sabe?
- Quando fiz minha primeira rasguei todas as minhas blusas pra poder deixá-las à mostra. Tudo mesmo. Hoje sou mais tranquilo com isso, você se acostuma.
- Acho que sim (mas tem como rasgar a pele pra mostrar o que a gente sente por dentro do coração?). Eu me acostumo.

(Silêncio)

- E como é aquilo da terceira condicional? Você tinha comentado antes dos phrasal verbs, não entendi muito bem. – ele pergunta.
- Então, a terceira condicional se refere a uma situação não realizada no passado. Quero dizer, alguma coisa que teria acontecido se algo antes disso tivesse acontecido.
- Quer dizer então que se a ação não ocorreu no passado, ela é impossível agora no presente?

(Silêncio)

- Mais ou menos. Por exemplo, if i'd known she was going to be here, I would've never come.
- Ela quem? – ele pergunta.
- Ninguém. Foi só um exemplo.
- If I’d known I would fall in love with you, I would’ve never kissed you. – ele rebate.
- Mas a gente (ainda) não se beijou. – e quando me ouvi, as palavras já tinham sido cuspidas pra fora.
- Eu sei. Foi só um exemplo.

(Silêncio)

- Então você mora aqui? – ele pergunta, já se encaminhando para a portaria do prédio.
- Moro. Tem quase um ano, o tempo voa.
- Bom, então eu já vou indo – ele diz.
- Você não quer subir? (tá tarde, é quase de manhã, meio madrugada, meio manhã, nunca sei, penso que a gente não devia limitar a madrugada-manhã, quando uma começa, quando a outra termina, a que horas amanhece, a que horas "desmadruga".)
- Sim, obrigado – ele diz.
- Sim?
- Sim, aceito subir (pro seu apartamento de quase um ano nessa madrugada-manhã). A gente pode fazer um café.
- Ah, sim, claro. Façamos sim. Vamos subir.

(Silêncio)

- É isso, então.
- Te vejo semana que vem?
- Nos vemos.
- Obrigado pelo café e pelo papo na janela. Foi legal ver o amanhecer ao seu lado.
- Pra uma noite sem fim, até que nosso final foi bem poético (talvez eu faça um texto sobre isso, talvez não).
- Você devia fazer um texto sobre isso. Você escreve, não escreve?
- Eu tento, mas nada fica bom.
- Eu duvido, e discordo, mesmo sem ter lido algo que você tenha escrito. Sobre o que foi a última coisa que você escreveu?
- Ah... (sobre você silencioso, dormindo ao meu lado naquele colchão de solteiro jogado no chão do quarto, morto, semi-morto de tanta cerveja, não houve café que resolvesse, eu ao seu lado, te admirando, observando, passando as mãos no seu cabelo bagunçado e no seu rosto, você por baixo do meu braço na sua camisa do Led, depois de pé fumando o mesmo cigarro de palha que eu nem gosto, mas fumo da mesma forma que fumo você, seu cabelo cheirava a xampu de farmácia, e também tinha a brisa da noite, lembro que chovia um pouco e o céu clareava aos poucos, abrindo-se por entre o feriado, suas mãos fechadas em torno do copo de requeijão reciclado com café quente, eu arrumava um fio de cabelo atrás do outro, e enchia a área de serviço de palavras, aquela área sem móveis que você me chamou pra entrar e me encarou e não fez nada, absolutamente nada, foi neste momento, então, que eu deveria ter dito o que agora, porém, seria ridículo dizer)...sobre nada em especial. Aliás, nem me lembro. Mas te mando pra ler depois.

Ao longe, no rádio, ouvíamos for a while it was nice but it's time to say bye. Chamamos um táxi e demos um abraço de despedida. And cold you’re so cold, you’re so cold, you’re so cold.

- Talvez.
- O que? – eu indago, enquanto ele entra no táxi.
- Talvez a terceira condicional ainda tenha jeito. Você já ouviu falar sobre um processo chamado criopreservação?
- Sim. Não é quando a gente preserva um tecido biológico colocando ele em temperaturas baixíssimas? E depois dá pra descongelar como se nada tivesse acontecido?
- Algo assim.

O táxi some na larga avenida, o céu continua a se abrir, o café esfria na janela: nós, também.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Riot


"In all energy exchanges, if no energy enters or leaves an isolated system, the entropy of that system increases. Energy continuously flows from being concentrated, to becoming dispersed, spread out, wasted and useless. New energy cannot be created and high grade energy is being destroyed. An economy based on endless growth is... UNSUSTAINABLE!"



I can scream out
I could be better
however, among so many people
it doesn't matter

it's late, people sleep
it's early, people die
least I

I'll be arrested
chased
busted
urban tourist
modern heroine
chasing the dragon
without my Baudelaire

somebody call nine one one
it's St. John's day, but I have seen no mercy
Joan of Arc was burnt
Judas was hung
John Doe is done

(is it fair to name the symbol of
civilization after its revolutionary blood?)

modern life
is the most organized riot
that I have ever seen

green hair turns black
my turtle is gone
it's so much information
it's too much destruction
with no appreciation

bring our strength
scream my name
it's not a crime
to live in pain

(and even if it was
I would still believe
in what we became)

Poema originalmente postado no HelloPoetry.