domingo, 4 de maio de 2014

Frutas da estação

sim, sou louca
e ofereço maçãs. vi na China
o pomar mais lindo do mundo

em bancos de morango, fazem-se
pouquíssimas caixinhas de ver,
ouvir e aturar. continuam
mofados

com todos os meus caroços
só dava licença aos jovens
de várias colheitas

em bancos de manga,
senti muita gente sugar
pedindo um pouco mais
lambendo o dedo por trás

hoje dei de cara com os subterfúgios que vão ser terríveis.

enterrei os pés molhados
num pé de laranja lima
destinada a me fazer
mãe terra

mesmo que uma vida
às custas de nossas virtudes
se dê por inteiro, na dúvida
é só cuspir o bagaço

poucos dedos nesse mundo me interessam:
dedos lambuzados de polpa fresca

a morte me rabisca com um galho, e me arrebenta
quando cai podre no chão

simples assim.

plantam consequências, censuras, sofrimentos
me mandam um poema no ouvido dos outros
a grama do vizinho é sempre mais quente

sim, sou louca
e peço desculpas
caso você queria um cigarro
é só vir ao meu pomar

eu chupo tudo o que me convém.

fora de todas as árvores próximas, daquelas afastadas,
daqueles montes de folha, daquela estrada que tarda;
e da falha que trago
enrolada no galho

dicotiledônias trazem o embrião
morto e me ajudam
a subir no tronco

chegando ao topo, colho:
temo que isso seja uma boca fechada
mastigando as frutas da estação

e que ninguém te leia:
a vida é maldição pra nada


3 comentários:

  1. Bru, você sabe que sou fã dos seus textos, né? Não foi diferente nesse!! Parabéns!

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  2. Minha louca! Fantástico, muito bom mesmo

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  3. Poucos artistas conseguem lançar muitas obras em sequência sem decepcionar em nenhuma delas, seja na literatura, cinema, musica, etc. Você está no meu grupo de artistas que ainda (coloquei esse ainda só pra ter um perigo kkkk) não lançaram nada que estivesse abaixo do esperado. Correndo o risco de soar repetitivo: Adorei muito!

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