sábado, 23 de novembro de 2013

Eólicas

Sugestão: toca a fita pra ler-sentindo.


Da cozinha, vejo a colcha da cama balançar. É o vento lá fora que traz a poeira dos dias pra dentro do apartamento. As cortinas dançam; e as roupas estendidas no varalzinho de chão, quase secas, voltam a ter a vida tirada pela máquina de lavar. Os objetos mais pesados, imóveis por cima da cama de solteiro, são percorridos entre suas brechas pelo vento. A barra da calça pendurada no varalzinho se entrelaça na camisola em tons pastéis. Assim, pedindo por um pouco mais de espaço entre as alças finas de seda, espreguiça-se entre linhas. O vento lá fora continua a entrar pela janela, pelos basculantes, pelas frestas mínimas nas quais somente ele, vento, sabe como penetrar.

Lembro de ti. Dos ventos em seus cabelos e de toda aquela bagunça deixada próxima à janela. Você, encostado no parapeito, pose sapiente, como quem fala muito, não diz nada e denuncia, calmamente, o desconcerto do mundo com palavras cálidas e patológicas. Eu, assistindo a tudo, ser imóvel e irrecuperável, já completamente nutrida por sua tentativa falaciosa de me cortejar. (Você consegue quase sempre.) O vento continua a soprar lá fora e aqui dentro, por entre os fios do linho e do seu cabelo. A camisola se entrelaça mais na barra da calça.

Eu, calça. Você, camisola. Nós, vento.


É através do vento que somos, não-somos, vamos e nos encontramos um no outro. Sem forma, sem cor, forte, fraco, breve, longo: dualizados, não dicotômicos. Fragilizados, sinestésicos, imprecisos e fracassados. Corrompidos e dilacerados pelo tanto que nunca pudemos ser.

O que digo é simples: não te pego, não te vejo, não sei de onde você vem ou aonde vai. Te tenho como rajadas breves e brisas leves, meu ciclone devastador de construções internas (que nem eu sabia que tinha), argamassa do desejo, que consegue destruir tudo quando, raramente, passa por-entre-em-contra mim. Deslocamento de ares entre corpos de água em movimento. Brisa leve, mas não fresca, que suga o pouco que me resta dentro dos pulmões. Ao mesmo tempo em que o perco, tento te dar ar, não te sufocar: mas você transborda tudo.

O vento sopra e me carrega; você me sopra e paralisa. O corpo tórrido é refrigerado com o cuidado de não tornar-se frígido. Vendavais: vejo e vou. Por alguns instantes, penso que o vento realmente tudo pode levar. Menos este silêncio, por fazer.


"Ela me visitava sem se preocupar muito com a discrição. Eu tinha consciência de que éramos descuidados, negligentes, principalmente num lugarejo como aquele. Mas não fiz nada a respeito. Dava para adivinhar o que ia acontecer. No fundo, acho que torci para acontecer. Schianberg escreve que é comum os amantes se tomarem por invisíveis. Apaixonados, ele diz, pensam que estão sempre a sós com o mundo. É um engano: estão apenas ofuscados pela luz que eles próprios emitem." [Marçal Aquino]

5 comentários:

  1. Sempre q eu pendurar as nossas roupas no varal, lembrarei desse texto! LINDO

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  2. Esse eu preciso dizer: FANTÁSTICO! A música casou perfeitamente com o texto. Deu pra sentir o vento soprando e entrando "pelas frestas mínimas nas quais somente ele, vento, sabe como penetrar" (uau!). Adorei muito!

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  3. Bruna, entre os poucos textos seus que li, esse vem a ser um dos mais lindos e tocantes, o cover de Radiohead - creep, que apesar essa semana para mim teve um forte significado, coincidentemente vem a aparecer em seu post fez com que se tornasse um dos mais lindos. Abraços.

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  4. Bru, não me canso de dizer o quanto você me surpreende a cada texto que leio. Mas esse superou! A música e o texto fizeram um casal perfeito, suas palavras me arrepiaram. Continue assim, fantástico!!

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  5. Ah, Bruna! Como você escreve bem! (Como eu poderia escrever outra coisa?)

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