sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Amplexo


o riSo nasce
no riZo do gozo
no gosto do laço

sábado, 23 de novembro de 2013

Eólicas

Sugestão: toca a fita pra ler-sentindo.


Da cozinha, vejo a colcha da cama balançar. É o vento lá fora que traz a poeira dos dias pra dentro do apartamento. As cortinas dançam; e as roupas estendidas no varalzinho de chão, quase secas, voltam a ter a vida tirada pela máquina de lavar. Os objetos mais pesados, imóveis por cima da cama de solteiro, são percorridos entre suas brechas pelo vento. A barra da calça pendurada no varalzinho se entrelaça na camisola em tons pastéis. Assim, pedindo por um pouco mais de espaço entre as alças finas de seda, espreguiça-se entre linhas. O vento lá fora continua a entrar pela janela, pelos basculantes, pelas frestas mínimas nas quais somente ele, vento, sabe como penetrar.

Lembro de ti. Dos ventos em seus cabelos e de toda aquela bagunça deixada próxima à janela. Você, encostado no parapeito, pose sapiente, como quem fala muito, não diz nada e denuncia, calmamente, o desconcerto do mundo com palavras cálidas e patológicas. Eu, assistindo a tudo, ser imóvel e irrecuperável, já completamente nutrida por sua tentativa falaciosa de me cortejar. (Você consegue quase sempre.) O vento continua a soprar lá fora e aqui dentro, por entre os fios do linho e do seu cabelo. A camisola se entrelaça mais na barra da calça.

Eu, calça. Você, camisola. Nós, vento.


É através do vento que somos, não-somos, vamos e nos encontramos um no outro. Sem forma, sem cor, forte, fraco, breve, longo: dualizados, não dicotômicos. Fragilizados, sinestésicos, imprecisos e fracassados. Corrompidos e dilacerados pelo tanto que nunca pudemos ser.

O que digo é simples: não te pego, não te vejo, não sei de onde você vem ou aonde vai. Te tenho como rajadas breves e brisas leves, meu ciclone devastador de construções internas (que nem eu sabia que tinha), argamassa do desejo, que consegue destruir tudo quando, raramente, passa por-entre-em-contra mim. Deslocamento de ares entre corpos de água em movimento. Brisa leve, mas não fresca, que suga o pouco que me resta dentro dos pulmões. Ao mesmo tempo em que o perco, tento te dar ar, não te sufocar: mas você transborda tudo.

O vento sopra e me carrega; você me sopra e paralisa. O corpo tórrido é refrigerado com o cuidado de não tornar-se frígido. Vendavais: vejo e vou. Por alguns instantes, penso que o vento realmente tudo pode levar. Menos este silêncio, por fazer.


"Ela me visitava sem se preocupar muito com a discrição. Eu tinha consciência de que éramos descuidados, negligentes, principalmente num lugarejo como aquele. Mas não fiz nada a respeito. Dava para adivinhar o que ia acontecer. No fundo, acho que torci para acontecer. Schianberg escreve que é comum os amantes se tomarem por invisíveis. Apaixonados, ele diz, pensam que estão sempre a sós com o mundo. É um engano: estão apenas ofuscados pela luz que eles próprios emitem." [Marçal Aquino]

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Nota de falecimento


aqui
jaz
uma
escritora
de
epitáfios