sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Incógnita


Conto em letras garrafais

Todos os dias esvaziava uma garrafa, 
colocava dentro sua mensagem,
e a entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.

[Marina Colasanti]


    O dia parecia não começar. Sandoval engolia a seco umas torradas velhas. Eram seis da manhã e o sol ainda não havia nascido. Sentado na poltrona próxima à janela, ele tentava fechar os olhos. O silêncio o fazia escutar as ondas do mar batendo contra as rochas. O maior problema não era a ressaca, nem a dele nem a do mar: era ela. Era a primeira noite sem ela.
  aEle não havia dormido naquela noite. Atormentado pela dor do abandono calou-se por toda a madrugada. A única coisa deixada para Sandoval foi um bilhete que, escrito no verso de um panfleto com letras garranchadas em caneta azul, contava uma história de amor que não era dos dois.
   Depois de alguns raios de sol terem dado à paisagem uma cor alaranjada, Sandoval levantou-se da poltrona e foi em direção à porta da frente.
   Saiu de casa do jeito que estava. Olhava para baixo mantendo as mãos nos bolsos. Atravessou a larga avenida e chegou à praia. Agora, poderia ouvir de perto as ondas e sentir a água nos pés. Sentou-se na areia, bem próximo ao mar. Seu relógio de pulso marcava seis e dezessete da manhã.
   No mesmo instante, sentiu algo bater contra seu pé: era uma garrafa azul com um papel enrolado dentro. Destampou a garrafa, pegou o bilhete, leu: era um tipo de carta de arrependimento.
   Pensou em devolvê-la ao mar mas hesitou, levando-a consigo para casa.
   Leu novamente a carta e guardou a garrafa com a carta debaixo de sua cama. Tomou banho e café. Saiu com o carro para ir até a empresa na qual trabalhava. Pegou trânsito. Demitiu-se. Voltou pra casa.
   Abriu a geladeira, pegou uma cerveja, bebeu-a em dois tempos. Sucedeu-se o ritual até o fim do dia. Da semana. Do mês. Bebendo.
   Num desses domingos vazios, andando pelo seu quarto, chutou uma coisa. Abaixou-se e pegou o objeto: era a garrafa azul.
  Lembrou-se daquele dia na praia, quando a encontrou. Nesse momento, mil idéias surgiram em sua cabeça. Por um momento pareceu feliz, na forma mais genérica de felicidade. Pegou um papel, escreveu sua mensagem e a colocou em uma das garrafas vazias da dispensa.
   Tampou e correu para a praia. Lançou a garrafa ao mar.
  O ritual sucedeu-se até a última garrafa vazia da dispensa, preenchida sempre com uma mensagem de Sandoval para ela.
  Nunca se soube ao certo o que Sandoval escrevia nas mensagens que ninguém respondeu. Hoje, ele continua bebendo. Morando na mesma casa, sentado na mesma poltrona virada para a janela, olhando fixamente para o mar, espera sempre que, daquela imensidão cristalina, surja alguma outra garrafa azul.

domingo, 22 de setembro de 2013

Meu coração, seu cigarro, nosso pulmão


      Ao longo do cais, observando os guindastes, eu era substituída por uma mulher mais fraca do que eu. Hesitei muitas vezes em deslocar a rota, perder-me pelas ruas e sair da cidade. Mas voltei e, como um robô de apenas uma função, já estava parada na porta de casa.
       De novo.
      Saí do carro com raiva. Uma raiva que me lembrou um filme em que um homem puxa a Lua pra mais perto da varanda para seu amor. Não ligo pra isso. Não ligo pra nada. E quem fez aquilo com a minha roseira? Minha porta de casa estava imunda. A terra sujou meu salto 15 que comprei pensando em você, pensando em furar seu pulmão. Sujei dentro de casa, joguei meus sapatos na cozinha e mordi a boca com tanta força que não senti meus lábios por dois minutos.
      Tudo culpa do cigarro. Tabaco seco picado enrolado em mim, que virei o papel que você fumava. E eu, que odiava tanto o cheiro que ficava em mim quando te beijava, pago agora o preço. O preço de cinco maços por dia no bar da rua de baixo.
      Quando você entrava por aquela porta comigo, eu fumava sem culpa. Não ligava se minha língua ia ficar com o mesmo gosto da sua, não fazia questão nenhuma de bala de hortelã. Não tinha hora pra ir embora. Fumávamos sem pressa, ficávamos sem fôlego. A menor oxigenação resultava em muito cansaço. Você sabe disso melhor do que ninguém e, mesmo assim, fumava. Achava isso maravilhosamente perigoso. Meu fluxo de sangue diminuía junto, mas eu nem sentia. Eu só sentia você.
     Nicotina, xileno, tolueno, cetonas, amônia, benzeno, níquel, cianeto, polônio. Sei as definições até hoje. Eu prestava atenção em todas as aulas de Química na faculdade pra saber o que era aquilo que conseguia me deixar perto de você, o que você tanto gostava. Cheguei a fazer uma carta comparando o que tínhamos um com o outro a tudo isso, usando belíssimas metáforas; mas a queimei com o mesmo fósforo que acendi o cigarro ao terminar de escrevê-la. Ninguém sabe, mas você continua sendo minha maior inspiração.
     Eu era o cowboy da propaganda de cigarro. A Cruella de Vil dos seus filmes. Mas você não tem mais tempo pra televisão. Ficávamos tão entretidos vendo os filmes naquela televisão pequena do seu quarto menor ainda que não cabíamos em nada. Ainda não cabemos.
      Só eu sei o que foi chegar em casa hoje e ter que estragar a única coisa que furaria o que tanto você faz questão de estragar com esse vício que me consome mais do que você mesmo. Eu nunca estive tão magrela, tão pálida, tão sem forças. E a única coisa que havia me deixado bonita hoje à beira do cais eu consegui estragar; e também amassar minha geladeira. E isso me lembra que nem posso mais inventar a desculpa de consertar alguma coisa aqui em casa. Você não mora mais aqui. Você não vem mais nessa cidade.
     Então eu pensei em sair do litoral. Voltar àquela cidade, nem pequena nem grande, e te achar naquele bairro simpático. Fiquei no quase e continuo nele. Será que você faz ideia que eu estou a um fio do infarto literal? Será que você ligaria? Será que você voltaria? Não tínhamos contrato, mas você poderia ter ficado. Meu drama virou palhaçada quando vi que os outros não sentiam mais sua falta. Só eu.
     Sentei no sofá dividindo espaço com as sete almofadas que você tinha me dado com os dias da semana. Abracei duas delas e joguei o resto no chão. Eu não iria chorar. Eu não tinha mais tempo pra isso. Essa droga era evitável, mas eu não consigo mais te largar. Fumar você me consumia tanto que eu já não sei mais o que fazer com o tempo que sobra.
     Tentei mover minha carcaça cadavérica. Tropecei na “quarta-feira” e bati a cabeça na mesa de vidro do centro da sala. Aos poucos, o sangue escorrendo da testa fazia uma poça, junto com os montes de cinzas no chão.
     Engoli a seco uma saliva que ainda restava na boca seca. Lembrei de você vestido em tons pastéis e do seu jeito sedutor que nunca vi igual. A fumaça embaçou minha vista. Fiquei no chão.
     Só não sabia ainda se era câncer ou cansaço.

Conto escrito do dia 29 para o 30 de agosto de 2010. Originalmente postado no Rua das Ilusões, meu antigo blog.

sábado, 14 de setembro de 2013

Já te disseram que você se parece com...

 Post inspirado nesse texto da Ana Sasso.

Sempre acreditei que, quando estamos no meio de uma conversa e não temos mais o que falar, começamos a falar de nós mesmos. Seria o contrário de falar sobre o clima ou a demora da fila pra puxar assunto. Porém, ressalto que começar a falar de si mesmo muito provavelmente levará sua conversa ao fim ou seu interlocutor também ficará com vontade de falar sobre si mesmo; e aí a conversa acaba virando uma disputa de conquistas e, até mesmo, de sofrimentos. Aquela coisa: "Nossa, tô tão cansada hoje" "E eu que tô morta?" ou então "Tô tão sem dinheiro hoje" "Nem fala, eu tô pobre. Só tenho dinheiro pra viver confortavelmente minha vida inteira se eu morrer na semana que vem". Pois é.

Mas, ainda que eu esteja com vontade, não é sobre isso que iremos falar hoje. Então, para (quase) confirmar minha hipótese inicial (pois, haja visto, até tenho sobre o que falar mas, no caso, escolho não falar), vou falar sobre mim. E essa é a chance de você apertar o X vermelho ali em cima, amigx. Corre que ainda dá tempo!

Lendo o texto que me inspirou a fazer esse, me peguei pensando com quais pessoas meus amigos, familiares e gente aleatória já me compararam. E, para minha surpresa, consegui lembrar de muitas. Muitas mesmo! Achei estranho e incrível ao mesmo tempo. Será que sou tão caricata assim? Será que foi um elogio ou uma piada disfarçada de ofensa? Será que eu pareço mesmo com essa pessoa? Será?

Sem mais delongas, vamos aos "ditos cujos", selecionados em meio a tantas comparações.


Deborah Secco (atriz brasileira queridíssima ou Bruna Surfistinha dos cinemas)

Essa comparação foi feita quando eu tinha 14 anos, algo entre 2007 e 2008. Minha tia podia jurar que eu tava a cara dela no banner com minha foto do meu aniversário de 15 anos. Por isso, peguei uma foto da nossa querida Bruna Surfistinha nessa época, pra ilustrar melhor a comparação. "O olho? A boca? O cabelo?". Talvez um ou outro. Ou todos. Ou nenhum. Eles nunca sabem. Só sabem que parecem.


Ana Angélica (participante do Big Brother Brasil 10 que pouca gente vai lembrar)

A "Morango" do BBB10 foi, sem dúvidas, uma das comparações que mais me marcaram. Todo mundo me achava parecida com ela e, quando eu digo todo mundo, era qualquer um que você perguntasse. Era estranho ouvir a famigerada frase "Já te disseram que você se parece com...", horrenda por natureza, e ouvir o complemento "...a Morando do BBB10?". Na época, eu tinha 17 anos. Claro que isso só durou até o BBB10 acabar mas, ainda assim, fica a dica: nunca compare ninguém com ex-BBBs. Sei lá porque, só sei que parece certo. É tipo falar que você parece com a Gretchen.


Sophia Loren (atriz italiana tão linda e talentosa quanto a Monica Bellucci)

Essa talvez tenha sido a comparação mais linda de todas. Quando a amiga de alguém que eu conhecia (não lembro nem a amiga nem a pessoa) virou pra mim e disse "Nossa! Mas você é a cara da Sophia alguma coisa, Loren eu acho, aquela que era modelo, atriz, não sei" quase tive vontade de abraçar a dita cuja e falar: "Cara, você me acha linda! Obrigada!". Obviamente, após a euforia, caí na real: "Talvez a maquiagem, né. Ou a sobrancelha, o branco dos olhos".



Cleópatra VII (ou a imagem que se fez dela)

Muito provavelmente se referindo à icônica figura dos cinemas, interpretada por Elizabeth Taylor (foto acima), e não à verdadeira Cleópatra VII (em tempo: você sabia que existiram várias "Cleópatras" e que a Cleópatra "mais famosa", conhecida por nós, foi a VII? - ou VI, depende do historiador) que muito provavelmente era assim. Desde que fiz franjinha e permaneci com ela, em meados de 2009/2010, as comparações eram constantes. Aliás, até hoje falam isso comigo. Nesse caso, até tenho que concordar: Cleópatra é uma das minhas figuras históricas preferidas e, querendo ou não, acabei incorporando elementos da imagem dela (criada na mídia) à minha própria imagem; e acredito que cabelo e maquiagem sejam os mais expressivos.


Xena: A princesa guerreira (aquela do seriado homônimo que muita gente assistiu)

Essa comparação foi o bullying virtual, aka trote virtual, feito por um veterano do curso de Letras, para o qual eu tinha sido recém-aprovada. Claro, rolou aquela montagem bacana que rodou o Facebook, mas o apelido acabou sendo deixado pra lá quando as aulas de fato começaram.


Lily Allen (cantora britânica fofíssima que tem músicas maravilhosas)

A fofa da Lily Allen foi a comparação mais recente, feita pelos meus colegas de trabalho. O mais engraçado é que foi uma coisa unânime. Quando vieram me contar a respeito, a história tinha sido mais ou menos assim: "A Bruna não parece alguém? Uma cantora? Quem que é? Eu sei. Passa o clipe da música aqui na recepção." "A LILY ALLEN" "ISSO!". Eu ri muito e também adorei a comparação. Lily Allen é o tipo de pessoa que você pode comparar com alguém. Assim como no caso da Morango, apenas parece certo (mas lá, no caso, certo é não comparar).


Johnny Depp (ator, músico e lindo estadunidense que todo mundo conhece)

Até eu gostaria que essa fosse de brincadeira, a zoeirinha do texto. Mas, não. Não é que tem como ficar pior, minha gente? Não que seja ruim ser comparada com Johnny Depp, de forma alguma. Eu sou daquelas que fala que é fã #1 do cara. Mas uma mulher ser comparada fisicamente com um homem é, no mínimo, estranho. Essa também foi da mesma tia que me achava parecida com a Deborah Secco. Diz ela que não é que eu pareça, mas sim os olhos pretinhos, jabuticabinhas que nem as minhas. Então acho que tá tudo bem, né?


E pra terminar o post, deixo a batatinha quente com vocês: quem tem razão? Aliás, alguém tem razão? É sempre bom lembrar que não devemos levar sempre a sério a opinião de alguém, pois não passa de um achismo, mas tem sempre aquela velha história:

Se alguém disser que você se parece com um cavalo, você vai ficar com raiva. Se três pessoas disserem que você se parece com um cavalo, você vai achar um pouco estranho. No entanto, se muitas pessoas disserem que você se parece com um cavalo, é melhor comprar uma sela.

E só pra lembrar: não compare ninguém com ex-BBBs.