quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O bosque da melancolia


“Le bonheur n’est pas chose aisée: il est très difficile de le trouver en nous, et impossible de le trouver ailleurs.” (Chamfort)

Eu gosto de caminhar na noite. O aroma, as cores, o vento. Às vezes, a gente vê a si mesmo. A rua está vazia, e eu estou andando. O que fui não mais existe, tampouco o que nunca fui. À parte isso, aquilo que sou agora, já foi. Como os astronautas que perderam o contato com o espaço, ou como o relógio da minha cozinha que não sabe mais encontrar o tempo. Até a chuva, que acabou de começar, já não sabe mais voltar ao céu.

A morte é uma necessidade. Eu deveria ter trazido o guarda-chuva.

Mas como o encontraria se não consigo nem encontrar a porta certa para sair de casa? Sempre bato a cabeça na prateleira baixa da cozinha, que fica perto da porta, que fica ao lado do relógio que não conta mais o tempo. O guarda-chuva não resolveria. É melhor, portanto, saber lidar com a chuva que não tem mais as nuvens, assim como eu já não tenho mais o meu relógio.

Eu estou agora no meio do Parque do Nada, e é exatamente onde eu deveria estar. Essa é apenas uma das mentiras que eu criei hoje. Azazel me persegue por entre as árvores mal iluminadas e os becos proibidos. Vai pelos bancos mal conservados, pelas poças que formam a armadilha do reflexo, ação a qual evito desde que já não fui mais o que sou. Já não sou mais o que fui. Melhor: não posso ser.

Essa chuva me envaidece, essa noite me empobrece. Não suporto vê-la indo de encontro ao espaço-tempo já perdido antes mesmo de começar. Disseram-me, quando eu tinha dez anos, que começamos a morrer no dia em que nascemos. E ainda assim quiseram convencer-me do contrário, de que viver daria em ou serviria para alguma coisa.

Essa noite me entristece. A vida humana deve ser mesmo algum tipo de erro, um desengano, uma ilusão infinita disfarçada de possibilidade de um dia ir embora.

Minha vida não se renova com essa chuva como a das plantas que, aqui, crescem sem saber que existem possibilidades muito piores do que pisar na grama. Toda essa merda envolvida em passado, presente e futuro, representações estúpidas de realidades em que nunca estive, circundada por pesadelos que me perseguem. As únicas coisas que fazem com que eu ainda exista são a fome, o sexo e o tédio, apesar de tudo. Se o reino da paz eterna fosse ao menos um holograma barato e pirateado do real, eu pouco ligaria pra esses impulsos. Eu só sou uma pessoa fodida, fugida e fingida procurando um pouco de paz de espírito. Quem me vende o melhor peixe, ganha e me ganha.

As cenas perdidas armazenadas em meu cérebro começam a virar pichações tortas e assimétricas de mosaicos mal desenhados através dos meus olhos. Azazel sopra em meu ouvido que é hora de partir. “Duo cum faciunt idem, non est idem”, caro Azazel. Deixe que vou por mim. I do have a fucking way

Da árvore mais próxima, cai o fruto da tranquilidade. O fim em si é o ser final. A noite acaba, and so do I. Agora sou “Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo”. Penso, e nem assim consigo existir.

4 comentários:

  1. O_O
    Sem palavras! Apenas deixo novamente a recomendação de que você assista Supernatural; e troque a pilha do nosso relógio

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  2. Você parece que é amiga das palavras de tanto tempo , você escreve de uma forma que não sei descrever em simples adjetivos , virei fã do seu blogue ^^ .

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  3. Queria lembrar qual era o comentário que tinha escrito para este texto...
    Queria muito! (Porque ele é o meu favorito)

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