sábado, 5 de janeiro de 2013

A padaria



Anteontem estive pensando em sonhos. Criá-los seria nossa salvação ou nossa cova? São muito doces, engordam e deixam a boca com vontade de outro. Ontem cheguei a um princípio de conclusão que estava mais para uma teoria: um sonho pode nos libertar mais ainda. E eu aqui, hoje, ainda trabalhando para esquecê-los e ser livre, esquecendo que a beleza da liberdade está justamente no poder sonhar. Eu queria um sonho agora. Quem sabe amanhã?

- Mas já passou da meia-noite!
- O dia só passa depois que a gente dorme.
- E se a gente parar de dormir?
- A gente para de sonhar.

Quando eu era bem pequena, minha mãe me deu uma caixinha quadrada, com uma tampinha vermelho sangue, do tamanho da palma da minha mão. Disse: “Aqui você pode guardar todos os seus sonhos”. Mas o que era um “sonho”? Já havia escutado tal palavra em certa ida à padaria, para comprar pão. Arrisquei:

- Moço, um sonho pra minha caixinha, por favor?
- Mas não vai caber na caixinha, minha criança.
- E precisa?

Mais tarde, descobri que precisava. Atriz, arqueóloga, estilista, professora. Não. Médica, advogada, engenheira. Sim, claro, com certeza. O estetoscópio coube direitinho na minha caixinha, mas os tecidos, não. Voltei à padaria. O moço, agora mais velho, me recebia com o sorriso costumeiro:

- O sonho coube na sua caixinha?
- Sim, mas eu não quero que caiba.
- E o que você vai fazer?
- Sonhar maior.

E, assim, maior sonhei. O que veio depois foram os pensamentos negativos e as dúvidas constantes. Você não vai conseguir. É muito difícil. Você “se acha”. Você tá doida? Até parece que você consegue. Eu faria isso muito melhor do que você. Lá na cozinha, os sonhos haviam acabado. Fui à padaria comprar mais.

- O sonho acabou, moço.
- Daqui a cinco minutinhos vai sair uma bandeja! Fresquinhos! Você espera?
- Espero...

Esperei. Morando agora numa cidade maior, os sonhos não parecem mais os mesmos. Além de raros, quando se acha um, são feitos sem carinho e com muita massa, pouco recheio, muita gordura, pouco adoçados e muito caros.

- Próximo?
- Eu gostaria de um sonho, por favor.
- Desculpe-me, moça, mas não tem sonho hoje.
- Tudo bem. Obrig...
- Próximo?

Saindo da padaria, esbarrei num sujeito. Ele era meio amarelo, parecia um sonho. Um sonho que escutava conversas sobre sonhos:

- Desculpe-me, mas não pude deixar de ouvir você perguntando ao moço se havia sonhos hoje. Na verdade, é exatamente isso que vim procurar. Já que não tem, acho que vou até outra padaria. Gostaria de me acompanhar?
- E por que eu iria com você?
- Você não quer mais os sonhos? Lá tenho certeza que terão sonhos. E estarão fresquinhos.
- Não sei. Pode ser que não tenha mais.
- Enquanto você os quiser, eles existirão. Vamos?

Quando me dei conta, havíamos feito uma viagem. Estávamos em frente à padaria em que eu costumava comprar sonhos quando era criança. Na porta fechada, havia um aviso:

“É com imenso pesar que comunicamos o falecimento do Sr ...”

Mais embaixo, o endereço e o horário do enterro. Estava acontecendo naquele momento. Corremos para lá. O cara amarelo e eu. O sonho e eu. De longe, algumas poucas pessoas em volta do túmulo, jogando flores enquanto choravam. De repente, um lindo garotinho puxou minha saia, sinalizando que queria falar comigo:

- Moça, você é a ...?
- Sim, sou eu mesma. Que posso fazer por você, minha criança?
- Meu avô deixou isso arrumado pra você ontem, antes dele ir dormir pra sempre. Ele disse que você viria hoje e pediu pra que eu lhe entregasse, caso ele não conseguisse.

Por um momento, todas as palavras que eu sabia sumiram da cabeça, da garganta, do coração. Só consegui suspirar bem forte com os olhos fechados, pegar o presente, agradecer e dar um beijo na testa da criança.

- Obrigada, minha criança, muito obrigada.

Do lado de fora, um papelzinho dobrado, com algumas palavras bambas escritas em preto, colado sobre o presente:

Querida ...,

Um sonho sempre se realiza, mas não necessariamente na exata forma como o sonhamos. Todas as coisas que nos acontecem são reflexos ou projeções de um sonho que tivemos. Se deixarmos a memória escapar por entre os pensamentos, eles podem se juntar de uma forma nova, completamente nômade, nos proporcionando sempre apagar, transcrever, reviver e sonhar a qualquer momento.

Com sonhos,

Sr ....

Perdi o pouco de fôlego que ainda me restava. Quando levantei o papel, pude ver mais claramente o presente: era uma caixinha quadrada, com uma tampinha vermelho sangue, do tamanho da palma da minha mão.


Primeiro texto de 2013, escrito nessa mesma madrugada, saído fresquinho do forno.