terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Versos brancos

▲ Arriscando um poema concreto pela primeira vez. No fim das contas, nem sei se é poema, nem sei se é concreto, visual, verbivocovisual, versos brancos, pretos, livres, presos... Mesmo assim, sendo isso e também sendo outra coisa, espero que o concreto caia em vossas cabeças e que, de alguma forma, os atinja.



sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Amplexo


o riSo nasce
no riZo do gozo
no gosto do laço

sábado, 23 de novembro de 2013

Eólicas

Sugestão: toca a fita pra ler-sentindo.


Da cozinha, vejo a colcha da cama balançar. É o vento lá fora que traz a poeira dos dias pra dentro do apartamento. As cortinas dançam; e as roupas estendidas no varalzinho de chão, quase secas, voltam a ter a vida tirada pela máquina de lavar. Os objetos mais pesados, imóveis por cima da cama de solteiro, são percorridos entre suas brechas pelo vento. A barra da calça pendurada no varalzinho se entrelaça na camisola em tons pastéis. Assim, pedindo por um pouco mais de espaço entre as alças finas de seda, espreguiça-se entre linhas. O vento lá fora continua a entrar pela janela, pelos basculantes, pelas frestas mínimas nas quais somente ele, vento, sabe como penetrar.

Lembro de ti. Dos ventos em seus cabelos e de toda aquela bagunça deixada próxima à janela. Você, encostado no parapeito, pose sapiente, como quem fala muito, não diz nada e denuncia, calmamente, o desconcerto do mundo com palavras cálidas e patológicas. Eu, assistindo a tudo, ser imóvel e irrecuperável, já completamente nutrida por sua tentativa falaciosa de me cortejar. (Você consegue quase sempre.) O vento continua a soprar lá fora e aqui dentro, por entre os fios do linho e do seu cabelo. A camisola se entrelaça mais na barra da calça.

Eu, calça. Você, camisola. Nós, vento.


É através do vento que somos, não-somos, vamos e nos encontramos um no outro. Sem forma, sem cor, forte, fraco, breve, longo: dualizados, não dicotômicos. Fragilizados, sinestésicos, imprecisos e fracassados. Corrompidos e dilacerados pelo tanto que nunca pudemos ser.

O que digo é simples: não te pego, não te vejo, não sei de onde você vem ou aonde vai. Te tenho como rajadas breves e brisas leves, meu ciclone devastador de construções internas (que nem eu sabia que tinha), argamassa do desejo, que consegue destruir tudo quando, raramente, passa por-entre-em-contra mim. Deslocamento de ares entre corpos de água em movimento. Brisa leve, mas não fresca, que suga o pouco que me resta dentro dos pulmões. Ao mesmo tempo em que o perco, tento te dar ar, não te sufocar: mas você transborda tudo.

O vento sopra e me carrega; você me sopra e paralisa. O corpo tórrido é refrigerado com o cuidado de não tornar-se frígido. Vendavais: vejo e vou. Por alguns instantes, penso que o vento realmente tudo pode levar. Menos este silêncio, por fazer.


"Ela me visitava sem se preocupar muito com a discrição. Eu tinha consciência de que éramos descuidados, negligentes, principalmente num lugarejo como aquele. Mas não fiz nada a respeito. Dava para adivinhar o que ia acontecer. No fundo, acho que torci para acontecer. Schianberg escreve que é comum os amantes se tomarem por invisíveis. Apaixonados, ele diz, pensam que estão sempre a sós com o mundo. É um engano: estão apenas ofuscados pela luz que eles próprios emitem." [Marçal Aquino]

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Nota de falecimento


aqui
jaz
uma
escritora
de
epitáfios

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Às caladas



I

E o dia incoa: quanto mais a gente aparece, mais invisível a gente fica. Fitando a rua pela janela, vejo a padaria e o açougue ainda fechados. Cinco horas da manhã e a lua negocia a troca com o sol. Ainda assim existe o instante lua-e-sol posto em contato no céu de ajustes.

II

Sempre ouvi dizer que a hora mais escura da noite é antes do amanhecer. "The night is always darkest before the dawn" dá uma boa tatuagem perto da coluna vertebral, em inglês, o idioma que é das tatuagens mas não fala a língua delas. Fica caro de pagar, mas caro de gostar. Sou desajeitado com essas coisas, mas não sou sem jeito. Tem diferença, não tem?

III

A padaria e o açougue destapam-se. São os mesmos bêbados recitando clichês que aborrecem os laboriosos matutinos. Segunda-feira é sempre o começo-do-fim. Primeira-feira deveria ser domingo, mas primeira-feira seria um outro dia. Primeira-feira seria de primeira e o dia mais útil da semana. Ao invés de preguiçarmos em casa, vadiaríamos no bar e ninguém nos barraria.

IV

Fervo o leite pra comer com o pão fresco. Manteiga cor do sol que troca de turno com a lua. O aroma da nata quase queimada faz lembrar o fogão a lenha lá de casa. Há grande diferença entre minha casa, onde moro e aonde quero ir. Aonde vou é o lugar que fica grudado no fundo do canecão quando deixo o leite esquentar demais.

V

Na cidade sem estrelas, já são seis da madrugada. A gente não devia limitar a madrugada-manhã. Quando uma começa? Quando a outra termina? A que horas amanhece? A que horas desmadruga? Seis é a hora que queimo a língua com o leite. O que sucede dói sempre que acontece. A consequência é você.

VI

Madrugada-manhã é aquela hora em que você vem me ver pra tomar um café com leite queimado e manteiga solar enquanto a padaria e o açougue abrem depois da hora mais escura do dia da primeira-feira de todo dia.

sábado, 5 de outubro de 2013

Autolinguagem

▲ Psicografando Fernando Pessoa, rascunhei os singelos versos que aqui expresso.


A escrita é uma convenção
Convence de forma tão breve
Que chega a convencer que é fala
O código que deveras escreve

E os que falam o que se escreve,
Na fala dita expressam bem
Não as palavras que escrevem,
Mas só as que pronunciam além.

E assim nas entrelinhas do código,
Enunciam-se, a quebrar o padrão,
Essas palavras escritas
Inscritas no coração

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Incógnita


Conto em letras garrafais

Todos os dias esvaziava uma garrafa, 
colocava dentro sua mensagem,
e a entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.

[Marina Colasanti]


    O dia parecia não começar. Sandoval engolia a seco umas torradas velhas. Eram seis da manhã e o sol ainda não havia nascido. Sentado na poltrona próxima à janela, ele tentava fechar os olhos. O silêncio o fazia escutar as ondas do mar batendo contra as rochas. O maior problema não era a ressaca, nem a dele nem a do mar: era ela. Era a primeira noite sem ela.
  aEle não havia dormido naquela noite. Atormentado pela dor do abandono calou-se por toda a madrugada. A única coisa deixada para Sandoval foi um bilhete que, escrito no verso de um panfleto com letras garranchadas em caneta azul, contava uma história de amor que não era dos dois.
   Depois de alguns raios de sol terem dado à paisagem uma cor alaranjada, Sandoval levantou-se da poltrona e foi em direção à porta da frente.
   Saiu de casa do jeito que estava. Olhava para baixo mantendo as mãos nos bolsos. Atravessou a larga avenida e chegou à praia. Agora, poderia ouvir de perto as ondas e sentir a água nos pés. Sentou-se na areia, bem próximo ao mar. Seu relógio de pulso marcava seis e dezessete da manhã.
   No mesmo instante, sentiu algo bater contra seu pé: era uma garrafa azul com um papel enrolado dentro. Destampou a garrafa, pegou o bilhete, leu: era um tipo de carta de arrependimento.
   Pensou em devolvê-la ao mar mas hesitou, levando-a consigo para casa.
   Leu novamente a carta e guardou a garrafa com a carta debaixo de sua cama. Tomou banho e café. Saiu com o carro para ir até a empresa na qual trabalhava. Pegou trânsito. Demitiu-se. Voltou pra casa.
   Abriu a geladeira, pegou uma cerveja, bebeu-a em dois tempos. Sucedeu-se o ritual até o fim do dia. Da semana. Do mês. Bebendo.
   Num desses domingos vazios, andando pelo seu quarto, chutou uma coisa. Abaixou-se e pegou o objeto: era a garrafa azul.
  Lembrou-se daquele dia na praia, quando a encontrou. Nesse momento, mil idéias surgiram em sua cabeça. Por um momento pareceu feliz, na forma mais genérica de felicidade. Pegou um papel, escreveu sua mensagem e a colocou em uma das garrafas vazias da dispensa.
   Tampou e correu para a praia. Lançou a garrafa ao mar.
  O ritual sucedeu-se até a última garrafa vazia da dispensa, preenchida sempre com uma mensagem de Sandoval para ela.
  Nunca se soube ao certo o que Sandoval escrevia nas mensagens que ninguém respondeu. Hoje, ele continua bebendo. Morando na mesma casa, sentado na mesma poltrona virada para a janela, olhando fixamente para o mar, espera sempre que, daquela imensidão cristalina, surja alguma outra garrafa azul.

domingo, 22 de setembro de 2013

Meu coração, seu cigarro, nosso pulmão


      Ao longo do cais, observando os guindastes, eu era substituída por uma mulher mais fraca do que eu. Hesitei muitas vezes em deslocar a rota, perder-me pelas ruas e sair da cidade. Mas voltei e, como um robô de apenas uma função, já estava parada na porta de casa.
       De novo.
      Saí do carro com raiva. Uma raiva que me lembrou um filme em que um homem puxa a Lua pra mais perto da varanda para seu amor. Não ligo pra isso. Não ligo pra nada. E quem fez aquilo com a minha roseira? Minha porta de casa estava imunda. A terra sujou meu salto 15 que comprei pensando em você, pensando em furar seu pulmão. Sujei dentro de casa, joguei meus sapatos na cozinha e mordi a boca com tanta força que não senti meus lábios por dois minutos.
      Tudo culpa do cigarro. Tabaco seco picado enrolado em mim, que virei o papel que você fumava. E eu, que odiava tanto o cheiro que ficava em mim quando te beijava, pago agora o preço. O preço de cinco maços por dia no bar da rua de baixo.
      Quando você entrava por aquela porta comigo, eu fumava sem culpa. Não ligava se minha língua ia ficar com o mesmo gosto da sua, não fazia questão nenhuma de bala de hortelã. Não tinha hora pra ir embora. Fumávamos sem pressa, ficávamos sem fôlego. A menor oxigenação resultava em muito cansaço. Você sabe disso melhor do que ninguém e, mesmo assim, fumava. Achava isso maravilhosamente perigoso. Meu fluxo de sangue diminuía junto, mas eu nem sentia. Eu só sentia você.
     Nicotina, xileno, tolueno, cetonas, amônia, benzeno, níquel, cianeto, polônio. Sei as definições até hoje. Eu prestava atenção em todas as aulas de Química na faculdade pra saber o que era aquilo que conseguia me deixar perto de você, o que você tanto gostava. Cheguei a fazer uma carta comparando o que tínhamos um com o outro a tudo isso, usando belíssimas metáforas; mas a queimei com o mesmo fósforo que acendi o cigarro ao terminar de escrevê-la. Ninguém sabe, mas você continua sendo minha maior inspiração.
     Eu era o cowboy da propaganda de cigarro. A Cruella de Vil dos seus filmes. Mas você não tem mais tempo pra televisão. Ficávamos tão entretidos vendo os filmes naquela televisão pequena do seu quarto menor ainda que não cabíamos em nada. Ainda não cabemos.
      Só eu sei o que foi chegar em casa hoje e ter que estragar a única coisa que furaria o que tanto você faz questão de estragar com esse vício que me consome mais do que você mesmo. Eu nunca estive tão magrela, tão pálida, tão sem forças. E a única coisa que havia me deixado bonita hoje à beira do cais eu consegui estragar; e também amassar minha geladeira. E isso me lembra que nem posso mais inventar a desculpa de consertar alguma coisa aqui em casa. Você não mora mais aqui. Você não vem mais nessa cidade.
     Então eu pensei em sair do litoral. Voltar àquela cidade, nem pequena nem grande, e te achar naquele bairro simpático. Fiquei no quase e continuo nele. Será que você faz ideia que eu estou a um fio do infarto literal? Será que você ligaria? Será que você voltaria? Não tínhamos contrato, mas você poderia ter ficado. Meu drama virou palhaçada quando vi que os outros não sentiam mais sua falta. Só eu.
     Sentei no sofá dividindo espaço com as sete almofadas que você tinha me dado com os dias da semana. Abracei duas delas e joguei o resto no chão. Eu não iria chorar. Eu não tinha mais tempo pra isso. Essa droga era evitável, mas eu não consigo mais te largar. Fumar você me consumia tanto que eu já não sei mais o que fazer com o tempo que sobra.
     Tentei mover minha carcaça cadavérica. Tropecei na “quarta-feira” e bati a cabeça na mesa de vidro do centro da sala. Aos poucos, o sangue escorrendo da testa fazia uma poça, junto com os montes de cinzas no chão.
     Engoli a seco uma saliva que ainda restava na boca seca. Lembrei de você vestido em tons pastéis e do seu jeito sedutor que nunca vi igual. A fumaça embaçou minha vista. Fiquei no chão.
     Só não sabia ainda se era câncer ou cansaço.

Conto escrito do dia 29 para o 30 de agosto de 2010. Originalmente postado no Rua das Ilusões, meu antigo blog.

sábado, 14 de setembro de 2013

Já te disseram que você se parece com...

 Post inspirado nesse texto da Ana Sasso.

Sempre acreditei que, quando estamos no meio de uma conversa e não temos mais o que falar, começamos a falar de nós mesmos. Seria o contrário de falar sobre o clima ou a demora da fila pra puxar assunto. Porém, ressalto que começar a falar de si mesmo muito provavelmente levará sua conversa ao fim ou seu interlocutor também ficará com vontade de falar sobre si mesmo; e aí a conversa acaba virando uma disputa de conquistas e, até mesmo, de sofrimentos. Aquela coisa: "Nossa, tô tão cansada hoje" "E eu que tô morta?" ou então "Tô tão sem dinheiro hoje" "Nem fala, eu tô pobre. Só tenho dinheiro pra viver confortavelmente minha vida inteira se eu morrer na semana que vem". Pois é.

Mas, ainda que eu esteja com vontade, não é sobre isso que iremos falar hoje. Então, para (quase) confirmar minha hipótese inicial (pois, haja visto, até tenho sobre o que falar mas, no caso, escolho não falar), vou falar sobre mim. E essa é a chance de você apertar o X vermelho ali em cima, amigx. Corre que ainda dá tempo!

Lendo o texto que me inspirou a fazer esse, me peguei pensando com quais pessoas meus amigos, familiares e gente aleatória já me compararam. E, para minha surpresa, consegui lembrar de muitas. Muitas mesmo! Achei estranho e incrível ao mesmo tempo. Será que sou tão caricata assim? Será que foi um elogio ou uma piada disfarçada de ofensa? Será que eu pareço mesmo com essa pessoa? Será?

Sem mais delongas, vamos aos "ditos cujos", selecionados em meio a tantas comparações.


Deborah Secco (atriz brasileira queridíssima ou Bruna Surfistinha dos cinemas)

Essa comparação foi feita quando eu tinha 14 anos, algo entre 2007 e 2008. Minha tia podia jurar que eu tava a cara dela no banner com minha foto do meu aniversário de 15 anos. Por isso, peguei uma foto da nossa querida Bruna Surfistinha nessa época, pra ilustrar melhor a comparação. "O olho? A boca? O cabelo?". Talvez um ou outro. Ou todos. Ou nenhum. Eles nunca sabem. Só sabem que parecem.


Ana Angélica (participante do Big Brother Brasil 10 que pouca gente vai lembrar)

A "Morango" do BBB10 foi, sem dúvidas, uma das comparações que mais me marcaram. Todo mundo me achava parecida com ela e, quando eu digo todo mundo, era qualquer um que você perguntasse. Era estranho ouvir a famigerada frase "Já te disseram que você se parece com...", horrenda por natureza, e ouvir o complemento "...a Morando do BBB10?". Na época, eu tinha 17 anos. Claro que isso só durou até o BBB10 acabar mas, ainda assim, fica a dica: nunca compare ninguém com ex-BBBs. Sei lá porque, só sei que parece certo. É tipo falar que você parece com a Gretchen.


Sophia Loren (atriz italiana tão linda e talentosa quanto a Monica Bellucci)

Essa talvez tenha sido a comparação mais linda de todas. Quando a amiga de alguém que eu conhecia (não lembro nem a amiga nem a pessoa) virou pra mim e disse "Nossa! Mas você é a cara da Sophia alguma coisa, Loren eu acho, aquela que era modelo, atriz, não sei" quase tive vontade de abraçar a dita cuja e falar: "Cara, você me acha linda! Obrigada!". Obviamente, após a euforia, caí na real: "Talvez a maquiagem, né. Ou a sobrancelha, o branco dos olhos".



Cleópatra VII (ou a imagem que se fez dela)

Muito provavelmente se referindo à icônica figura dos cinemas, interpretada por Elizabeth Taylor (foto acima), e não à verdadeira Cleópatra VII (em tempo: você sabia que existiram várias "Cleópatras" e que a Cleópatra "mais famosa", conhecida por nós, foi a VII? - ou VI, depende do historiador) que muito provavelmente era assim. Desde que fiz franjinha e permaneci com ela, em meados de 2009/2010, as comparações eram constantes. Aliás, até hoje falam isso comigo. Nesse caso, até tenho que concordar: Cleópatra é uma das minhas figuras históricas preferidas e, querendo ou não, acabei incorporando elementos da imagem dela (criada na mídia) à minha própria imagem; e acredito que cabelo e maquiagem sejam os mais expressivos.


Xena: A princesa guerreira (aquela do seriado homônimo que muita gente assistiu)

Essa comparação foi o bullying virtual, aka trote virtual, feito por um veterano do curso de Letras, para o qual eu tinha sido recém-aprovada. Claro, rolou aquela montagem bacana que rodou o Facebook, mas o apelido acabou sendo deixado pra lá quando as aulas de fato começaram.


Lily Allen (cantora britânica fofíssima que tem músicas maravilhosas)

A fofa da Lily Allen foi a comparação mais recente, feita pelos meus colegas de trabalho. O mais engraçado é que foi uma coisa unânime. Quando vieram me contar a respeito, a história tinha sido mais ou menos assim: "A Bruna não parece alguém? Uma cantora? Quem que é? Eu sei. Passa o clipe da música aqui na recepção." "A LILY ALLEN" "ISSO!". Eu ri muito e também adorei a comparação. Lily Allen é o tipo de pessoa que você pode comparar com alguém. Assim como no caso da Morango, apenas parece certo (mas lá, no caso, certo é não comparar).


Johnny Depp (ator, músico e lindo estadunidense que todo mundo conhece)

Até eu gostaria que essa fosse de brincadeira, a zoeirinha do texto. Mas, não. Não é que tem como ficar pior, minha gente? Não que seja ruim ser comparada com Johnny Depp, de forma alguma. Eu sou daquelas que fala que é fã #1 do cara. Mas uma mulher ser comparada fisicamente com um homem é, no mínimo, estranho. Essa também foi da mesma tia que me achava parecida com a Deborah Secco. Diz ela que não é que eu pareça, mas sim os olhos pretinhos, jabuticabinhas que nem as minhas. Então acho que tá tudo bem, né?


E pra terminar o post, deixo a batatinha quente com vocês: quem tem razão? Aliás, alguém tem razão? É sempre bom lembrar que não devemos levar sempre a sério a opinião de alguém, pois não passa de um achismo, mas tem sempre aquela velha história:

Se alguém disser que você se parece com um cavalo, você vai ficar com raiva. Se três pessoas disserem que você se parece com um cavalo, você vai achar um pouco estranho. No entanto, se muitas pessoas disserem que você se parece com um cavalo, é melhor comprar uma sela.

E só pra lembrar: não compare ninguém com ex-BBBs.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O bosque da melancolia


“Le bonheur n’est pas chose aisée: il est très difficile de le trouver en nous, et impossible de le trouver ailleurs.” (Chamfort)

Eu gosto de caminhar na noite. O aroma, as cores, o vento. Às vezes, a gente vê a si mesmo. A rua está vazia, e eu estou andando. O que fui não mais existe, tampouco o que nunca fui. À parte isso, aquilo que sou agora, já foi. Como os astronautas que perderam o contato com o espaço, ou como o relógio da minha cozinha que não sabe mais encontrar o tempo. Até a chuva, que acabou de começar, já não sabe mais voltar ao céu.

A morte é uma necessidade. Eu deveria ter trazido o guarda-chuva.

Mas como o encontraria se não consigo nem encontrar a porta certa para sair de casa? Sempre bato a cabeça na prateleira baixa da cozinha, que fica perto da porta, que fica ao lado do relógio que não conta mais o tempo. O guarda-chuva não resolveria. É melhor, portanto, saber lidar com a chuva que não tem mais as nuvens, assim como eu já não tenho mais o meu relógio.

Eu estou agora no meio do Parque do Nada, e é exatamente onde eu deveria estar. Essa é apenas uma das mentiras que eu criei hoje. Azazel me persegue por entre as árvores mal iluminadas e os becos proibidos. Vai pelos bancos mal conservados, pelas poças que formam a armadilha do reflexo, ação a qual evito desde que já não fui mais o que sou. Já não sou mais o que fui. Melhor: não posso ser.

Essa chuva me envaidece, essa noite me empobrece. Não suporto vê-la indo de encontro ao espaço-tempo já perdido antes mesmo de começar. Disseram-me, quando eu tinha dez anos, que começamos a morrer no dia em que nascemos. E ainda assim quiseram convencer-me do contrário, de que viver daria em ou serviria para alguma coisa.

Essa noite me entristece. A vida humana deve ser mesmo algum tipo de erro, um desengano, uma ilusão infinita disfarçada de possibilidade de um dia ir embora.

Minha vida não se renova com essa chuva como a das plantas que, aqui, crescem sem saber que existem possibilidades muito piores do que pisar na grama. Toda essa merda envolvida em passado, presente e futuro, representações estúpidas de realidades em que nunca estive, circundada por pesadelos que me perseguem. As únicas coisas que fazem com que eu ainda exista são a fome, o sexo e o tédio, apesar de tudo. Se o reino da paz eterna fosse ao menos um holograma barato e pirateado do real, eu pouco ligaria pra esses impulsos. Eu só sou uma pessoa fodida, fugida e fingida procurando um pouco de paz de espírito. Quem me vende o melhor peixe, ganha e me ganha.

As cenas perdidas armazenadas em meu cérebro começam a virar pichações tortas e assimétricas de mosaicos mal desenhados através dos meus olhos. Azazel sopra em meu ouvido que é hora de partir. “Duo cum faciunt idem, non est idem”, caro Azazel. Deixe que vou por mim. I do have a fucking way

Da árvore mais próxima, cai o fruto da tranquilidade. O fim em si é o ser final. A noite acaba, and so do I. Agora sou “Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo”. Penso, e nem assim consigo existir.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Indefinito


Poeira cósmica pelo cometa
Nebulosas dançantes no espaço-tempo
Pelos becos invisíveis do protoplaneta
A supernova ardente em esfarelamento
É vista da lente de uma luneta

Acordei com o eclipse
Afinando-se estreito pelas estrelas
Que de um brilho tanto cega
Os astronautas que desejam vê-las

Da espaçonave gritam os herdeiros
Orbitando em infinita expansão
E a zênite além dos buracos negros
Chora nas crateras durante a translação

Não permita que sobre a Lua se erga
Um túmulo feito de asteroides e um gráfio
Para gravar a nota de passamento desta galáxia na verga
Aqui jaz um escrivonauta de epitáfios

domingo, 21 de julho de 2013

At death’s door


The graveyard shift starts
Through the gates, the undertaker
watches the body upon the grave

There is no wreath, no will, no heir
Intestate, grave-digger?
Even if the body was not there!
There is no cenotaph

But the corpse,
mausoleum's orts,
claims to lie down elsewhere

Gloomy night, almost dawn
bereavement starts tonight
Deceased corpse cries

No repose, exanimate
Worn-out body, no replace
Requiem post suicide

Bidding farewell
The mug, full of sorrow,
is loaded with blood as well

The skeptical man,
once again,
utters a shout to the corpse.
But the worms,
spread over the skull,
have its own words to say:
Memento mori, undertaker.
Your grave we already have.
Life, death, time
It all passes by.
You’d better save your last breath.”


Arriscando um poema em Inglês (pela primeira vez!) nesse fim de semana quente de inverno, em julho de 2013.

domingo, 7 de julho de 2013

Julho


Férias de outros lugares
Cortinas dançantes no quarto exposto
Brisa leve do mar de inverno
O chalé intacto
Restaurado
Lá em cima, cálido
Aqui, gélido
O luar ansioso à espera
Do ser que levanta de
onde repousara
Indaga:
Quem consegue enxergar o todo
no resto do que já
se apagou?
O que aconteceu com o mundo
enquanto eu estava
dormindo?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ditado


Número 1
Gato (vírgula)
Pato (vírgula)
Mochila (vírgula)
Banana (vírgula)
Sorvete (vírgula)
Sapo (ponto)

Número 2
Rua (vírgula)
Vontade (vírgula)
Aprender (exclamação)
Primeiro (ponto e vírgula)
Valor (ponto e vírgula)
Futuro (reticências)

Número 3
Trabalho (vírgula)
Dinheiro (exclamação)
Política (dois pontos)
Amor (interrogação)
Tempo (reticências)
Vida (aspas)
Sucesso (reticências)
Meta (ponto)

Número 4
Bengala (ponto)
Pele (ponto)
Preferencial (ponto)
Ócio (reticências)
Saudade (dois pontos)
Fraqueza (exclamação)

Número 4
Fluido (vírgula)
Verme (vírgula)
Terra (vírgula)
Vela (vírgula)
Sombra (vírgula)
Epitáfio

(Fecha parênteses)
"Fecha aspas"
Ponto final.
Reticências...

sábado, 4 de maio de 2013

Irredutível


Aconteceu como num filme. Ela muda de escola, ela mostra uma música, eles começam a conversar. E eles são praticamente iguais. Ela conta seus medos, suas preferências reais, que só ele entende e é capaz de gostar também. Começam a andar juntos e se perguntam porque demoraram tanto tempo para se conhecerem e serem amigos. Os filmes são os mesmos; as músicas, iguais. As conversas são diferentes, a inteligência se atrai. Ela pensa “meu amigo, meu irmão, ele me entende”. Ele pensa “minha amiga, minha vida, meu amor”. Pensamentos se chocam, interesses diferentes. As conversas diminuem quando tudo é revelado. Tentar conciliar as coisas fica meio complicado. Férias chegam, passam e a rotina volta. As conversas de dias inteiros viram poeira digerida nas matérias do fichário. E o amor dele nem em “bom dia” se transforma. 

Miniconto ou "médioconto" (vai saber!) escrito em 30 de agosto de 2009 e originalmente postado no Rua das Ilusões, meu antigo blog. Para ver o post original, clique aqui.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A arte de blogar

Vamos voltar em 2004: ano do tsunami na Tailândia, primeiras especulações sobre haver água em Marte e ano de criação do Orkut. Ano também no qual, infelizmente, faleceram dois dos meus autores preferidos: Hilda Hilst e Fernando Sabino. E, pelo lado bom, ano no qual o melhor seriado que já existiu, LOST, foi lançado. Porém, por mais interessante que seja fazer essa retrospectiva "mais do que retrô", voltemos em 2004, primeiro ano no qual tive o prazer de conhecer o maravilhoso advento da Internet. Melhor: ano no qual criei meu primeiro blog.

Eu, em 2004, pedindo pra moça desligar o telefone
pra eu poder entrar na Internet discada e tentando
escrever um texto.

Minha Internet era da UOL, aproximadamente 52 kbps e, claro, no esquema: todos os dias depois da meia- noite, sábado depois das 14h e domingo o dia inteiro. Eu mal podia acreditar que eu tinha Internet naquele Windows XP. Imaginem a alegria para uma criança de 11 anos ao descobrir um mundo nunca antes visto? E mais: para uma criança que, mesmo com a pouca idade, sonhava em ser jornalista, cobrir a guerra, ser correspondente, ser âncora? Uma criança cheia de ideias e com muita vontade de escrever.

Comecei minha jornada na tal blogosfera em 2004 mesmo, criando o Bruninha Spears (não julguem uma criança de 11 anos, ok?) no UOL Blog e, mais tarde, migrei com o mesmo nome para o Weblogger, do Terra, que nem existe mais. Buscava o melhor template em sites chamados Template Shop, que provavelmente não existem mais: Thomoeda Templantes, Vickys ou Vickys Place, Evelyn's Place, True Luv e outros que não bombavam tanto quanto esses na época. Era lindo passar horas e horas no domingo nesses sites, escolhendo e testando o melhor template pro meu querido blog (claro, tinha que ter a foto da Britney!) e poder dizer, toda feliz, fazendo um "Edit 1" no último post, dizendo: "Gente, o blog tá de roupa nova! Repararam no novo lay?". E essa gente era, mais ou menos, 6 ou 7 pessoas que visitavam seu blog regularmente.

Além disso, eu contava a ajuda de uma quase super-heroína, minha amiga Érika Simões, hoje uma quase jornalista/comunicadora social/publicitária e afins (diferente de mim, que resolvi fazer Letras ao invés de Jornalismo), que me salvava sempre e pra sempre nas minhas eternas dúvidas de "onde coloco esse código?", "faz tal gif pra mim?", "que programa você usa?", "faz um lay pra mim, Kita?", "Haloscan é melhor que UOL comentários?". Ela também tinha um blog, o Yeah-Yeah, que era a coisa mais linda do mundo e principal fonte de inspiração próxima que eu tinha. Se não fosse por ela, não sei se eu teria tido a coragem de mergulhar na Internet sozinha. E não sei como ela me aguenta até hoje. Valeu, Kitakiss!

Eu escrevia sobre tudo (percepções que eu tinha, ideias que vinham do nada, desejos, medos, vontades, textos introspectivos, situações cotidianas...), mas não era totalmente um diário. Como eu gostava de escrever textos de ficção, inventava historinhas, mas também postava imagens, gifs e tudo que viesse na minha cabeça, desde que fosse bem brilhoso, já que a moda eram os gifs "piscantes" com Candy Dolls e frases de impacto. E a gente seguia a vida assim, participando de Contests, querendo ganhar o button de Blog do Mês, adicionando todo e qualquer script que nos fosse apresentado, como barras de rolagem automáticas, deixar a foto do perfil de cinza pra colorida ou vice-versa, colocando nosso mood, bonequinhos, gifs e etc, muito etc.

Durante meus primeiros anos na blogosfera, fiz muitas amizades pelos comentários do blog. Tinha gente do Rio, de Brasília, de São Paulo, do Sul... De todo o lugar que eu pudesse imaginar desse Brasil. E a gente conversava muito, horas e horas no MSN, saudoso MSN. Deixo aqui um beijo pras lindas e lindos Giuliana, DaniNatália, Leka e Paulo, representando essa galera maravilhosa que tive o prazer de conhecer. Nós éramos muito exigentes com os comentários: se alguém vinha comentar no nosso blog, inexoravelmente comentávamos no blog da pessoa. E não precisava de nada de "comento de volta" e variantes do tipo. A gente comentava porque gostava, porque as ideias batiam, porque era legal comentar e ver que alguém realmente tinha parado e lido o que você tinha escrito.

Ter um blog era uma obsessão, uma religião, uma loucura sem tamanho. Passavam-se horas até escolhermos o layout perfeito, a imagem perfeita pro texto nem tão perfeito assim, as palavras perfeitas. Como eu era super-muito-über-hiper-demais-da-conta perfeccionista e inquieta, mudei de blog inúmeras vezes, mas sempre permaneci no UOL Blog, a tal da terminação .zip.net para não assinantes. Não sei a quantia exata de blogs que tive, mas lembro de alguns nomes: Drama Station, Bleachers, Pistachio, Recitations, Poleteli ("voar" em Russo), Freak Fancy... E com certeza alguns outros que não lembro mais. Porém, permaneci pouquíssimo tempo com esses blogs. E isso porque ainda estamos em 2006.

Então, depois de muito tentar combinações em Inglês e palavras em outras línguas mais exóticas, resolvi que queria algo bem "brazuca", bem meu. Foi então que, em 2007, criei o Rua das Ilusões, também no querido UOL Blog (clique aqui para ver meu primeiro post lá). Nessa época, percebi melhor a necessidade de ter um espaço para desabafar, e também continuar contando meus "causos". Esse novo-velho teor que resolvi dar ao blog não foi pensado, estruturado ou combinado. Foi exatamente essa necessidade de me expor de dentro pra fora e de fora pra dentro, até mesmo dar a cara a tapa, falar, cuspir, escancarar algum pedaço de mim. E, assim, ganhei uns poucos e belos 6 ou 7 leitores, continuando com o blog até janeiro de 2012.

Nesse meio tempo, tive oportunidades incríveis na blogosfera. Houve um tempo em que a revista Capricho tinha uma seção na revista chamada Tudo de Blog, a qual consistia em 3 textinhos de 3 blogueiras em uma página da revista falando sobre determinado tema dado pela jornalista responsável, a Nati Duprat. Também tínhamos uma seleção de textos pra parte do Tudo de Blog no site da Capricho. Então eu, leitora assídua da Capricho na época (já que a W.i.t.c.h. não era mais a mesma), resolvi me inscrever para ser colaboradora, na seleção de 2008. A inscrição era um texto, sobre um tema X que não lembro agora, e mais alguns dados. E, para a minha surpresa, em meio a mais de 1.500 inscrições, fiquei entre as 130 selecionadas! Como eu era menor de idade, mamãe assinou o Termo de Responsabilidade, mandamos pelo Correio e pronto! Fui publicada na revista duas vezes: uma em dezembro de 2008 com o texto "Mais uma volta em torno do Sol" (capa Britney Spears - olha o Bruninha Spears dando resultado!) e em junho de 2009 com o texto "A vitória da Mulher Sustentável" (capa Robert Pattinson). No site, fui publicada três vezes, com os textos "Fuma, fuma, fuma, folha de bananeira...", "No dia 12 de junho..." e "Neurose Virtual". Na época, um professor de Português do meu ex-colégio colocou o xerox do meu texto numa prova de redação, fez uma mini-biografia pra mim e pediu na prova um texto no mesmo formato! Me senti a diva da cidade com todo mundo fazendo uma prova com meu texto. Alô, Machado, um dia eu chego lá! (Que nada...)

Quem me conhece e/ou acompanha essa minha jornada louca na blogosfera, sabe que eu tenho sérios problemas com prazos, posts e datas. Chego a ficar meses sem postar, e nem é hipérbole: podem checar minha última postagem antes desse post... Janeiro! Mas quando me dá na telha, eu vou e escrevo um testamento, coisa que provavelmente está acontecendo agora. Por conta disso, quase saí da equipe de colaboradoras do Tudo de Blog, já que eu fazia duas de 20 pautas mandadas, por exemplo. Mesmo assim, fiquei na equipe até a extinção da seção na revista e no site, que aconteceu no início de 2010. Fiquei, então, de 2008 a 2010, dos 14 aos 16 anos: a cada ano mais ou menos 60 meninas "das antigas" ficavam e 60 meninas novas eram selecionadas. E, nesse meio tempo, eu tentava manter o Rua das Ilusões atualizado pelo menos três vezes a cada seis meses. Não tá fácil pra ninguém...

O Tudo de Blog acabou, mas a amizade com as lindas que conheci lá, não. Hoje em dia temos um grupo de desabafos e tudo o que você puder imaginar no Facebook, onde relembramos e contamos as peripécias atuais. Fica aqui um beijo enorme pra todas elas, já que algumas são blogueiras até hoje também!

Depois do TDB, parti para o No Divã, projeto das ex-tudodebloguetes que, assim como eu, ficaram órfãs na noite para o dia, precisando de um novo local para se expressar. Infelizmente, devido ao meu probleminha com prazos e etc, só contribuí três vezes para o site, na seção "Responsa", que tinha a ver com escola e vestibular, com os textos "Saiam de cima de mim", "Organize-se brincando" e "Professor e aluna, amor (quase) proibido". Acabei pedindo pra sair por falta de tempo, mas elas continuam por lá, firmes e fortes. Não deixem de visitar a Revista No Divã.

Depois disso, em maio de 2010, minha conterrânea Bruna Vieira, do blog Depois dos Quinze, me chamou para ser colaboradora do blog dela. O DDQ foi o blog para o qual mais produzi textos (acho que até mais que para o meu próprio!). Participei das tags "Comportamento" e "Entre Amigas", com inúmeros textos: "Auto-estima", "Determine-se", "Eu e a timidez", "O depois da despedida", "Quem é o príncipe encantado?", "Valorizando o reconhecimento", "Decida-se", "Rola um sentimento", "Fracasso antecipado", "Felicidade mútua", "O que é seu é sempre seu", "Me, myself and I", "Foi só naquele dia", "Saudades demais", "Por trás da tela", "Reta final", "Felicidade conttrolada", "Mudando a vontade", "Vira o disco, vira a vida", "Sexo é escolha"... E a lista segue. Porém, no início de 2012, não estava mais conseguindo postar ou escrever, e também sem tempo, meu velho probleminha. Então, acabei pedindo pra sair da equipe também. Hoje, o blog dela é um dos mais populares no meio adolescente. Agradeço muito a ela, pois cresci bastante enquanto escrevi pra lá. Beijo pra Bruna, que além de conterrânea é chará, representando a galera nova da blogosfera.

Em meio a essa confusão toda, e o pobre do Rua das Ilusões? Ficava lá abandonado, triste e sozinho. Aquela minha vontadezinha de mudar, sair correndo de um blog pro outro, começou a aparecer. E, então, a terminação .zip.net já não era suficiente, o UOL Blog ia acabar sendo excluído de uma forma ou de outra e eu ainda tinha um e-mail da BOL em 2011! Ou seja, era preciso correr e modernizar, e bem rápido. Mas e o apego aos textos antigos? Não queria por nada no mundo perdê-los, mas também queria excluir o blog. Como não dava pra exportar os textos no UOL Blog e importá-los no blogspot, servidor para o qual eu queria mudar, preferi deixar o Rua do jeitinho que estava e fiz um último post com um link para cá, o que deve dar certo ainda, suponho. Não faço ideia se as pessoas ainda vão lá (eu vou pra matar a saudade sempre que ela aparece). Enfim, criei coragem e "neologizei" Infinitopia, essa coisa linda que pretendo manter por muito tempo.

Eu não queria me alongar tanto, fiz de tudo para isso não acontecer, mas quando se trata de blog, parte importantíssima da minha vida, falar pouco não é comigo. Posso ter todos os meus problemas com prazos e vontade de escrever, mas hoje, por ser Dia do Blogueiro (veja o porquê aqui), não pude resistir ao sentimento saudosista que me invadiu nesse dia frio e nublado em Juiz de Fora. Caramba, ano que vem faz DEZ ANOS que eu tenho blog! Hoje, com 19 anos, é muito bom poder dizer isso. Nunca ganhei um centavo com blog ou colaborações e nem pretendo. Também não gosto muito de falar que sou "blogueira", pois o termo tem uma conotação completamente diferente nos dias de hoje. Gosto de falar que tenho blog, que escrevo de quando em vez, por aí, quando me dá na telha. Que estarei sempre e nunca aqui, escrevendo e não escrevendo, sendo e não sendo. No dia de hoje, além de parabenizar a velha guarda que é nova e a moçada atual que é velha, queria agradecer a você que chegou até aqui num texto que só tem uma imagem. Nos dias de hoje, é difícil conseguir atenção só pelas palavras, já que as pessoas sempre precisam de várias imagens, um vídeo, um gif, um sorteio... Mas isso é assunto pra outra hora.

No mais, quero deixar um beijo pra todos os blogueiros e blogueiras que passaram e mudaram minha vida, nas experiências trocadas e nas madrugadas sem dormir tentando escrever. Enquanto houver aquelas 6 ou 7 pessoas comentando e lendo o que eu escrevo, blogar valerá a pena.

Feliz Dia do Blogueiro!

sábado, 5 de janeiro de 2013

A padaria



Anteontem estive pensando em sonhos. Criá-los seria nossa salvação ou nossa cova? São muito doces, engordam e deixam a boca com vontade de outro. Ontem cheguei a um princípio de conclusão que estava mais para uma teoria: um sonho pode nos libertar mais ainda. E eu aqui, hoje, ainda trabalhando para esquecê-los e ser livre, esquecendo que a beleza da liberdade está justamente no poder sonhar. Eu queria um sonho agora. Quem sabe amanhã?

- Mas já passou da meia-noite!
- O dia só passa depois que a gente dorme.
- E se a gente parar de dormir?
- A gente para de sonhar.

Quando eu era bem pequena, minha mãe me deu uma caixinha quadrada, com uma tampinha vermelho sangue, do tamanho da palma da minha mão. Disse: “Aqui você pode guardar todos os seus sonhos”. Mas o que era um “sonho”? Já havia escutado tal palavra em certa ida à padaria, para comprar pão. Arrisquei:

- Moço, um sonho pra minha caixinha, por favor?
- Mas não vai caber na caixinha, minha criança.
- E precisa?

Mais tarde, descobri que precisava. Atriz, arqueóloga, estilista, professora. Não. Médica, advogada, engenheira. Sim, claro, com certeza. O estetoscópio coube direitinho na minha caixinha, mas os tecidos, não. Voltei à padaria. O moço, agora mais velho, me recebia com o sorriso costumeiro:

- O sonho coube na sua caixinha?
- Sim, mas eu não quero que caiba.
- E o que você vai fazer?
- Sonhar maior.

E, assim, maior sonhei. O que veio depois foram os pensamentos negativos e as dúvidas constantes. Você não vai conseguir. É muito difícil. Você “se acha”. Você tá doida? Até parece que você consegue. Eu faria isso muito melhor do que você. Lá na cozinha, os sonhos haviam acabado. Fui à padaria comprar mais.

- O sonho acabou, moço.
- Daqui a cinco minutinhos vai sair uma bandeja! Fresquinhos! Você espera?
- Espero...

Esperei. Morando agora numa cidade maior, os sonhos não parecem mais os mesmos. Além de raros, quando se acha um, são feitos sem carinho e com muita massa, pouco recheio, muita gordura, pouco adoçados e muito caros.

- Próximo?
- Eu gostaria de um sonho, por favor.
- Desculpe-me, moça, mas não tem sonho hoje.
- Tudo bem. Obrig...
- Próximo?

Saindo da padaria, esbarrei num sujeito. Ele era meio amarelo, parecia um sonho. Um sonho que escutava conversas sobre sonhos:

- Desculpe-me, mas não pude deixar de ouvir você perguntando ao moço se havia sonhos hoje. Na verdade, é exatamente isso que vim procurar. Já que não tem, acho que vou até outra padaria. Gostaria de me acompanhar?
- E por que eu iria com você?
- Você não quer mais os sonhos? Lá tenho certeza que terão sonhos. E estarão fresquinhos.
- Não sei. Pode ser que não tenha mais.
- Enquanto você os quiser, eles existirão. Vamos?

Quando me dei conta, havíamos feito uma viagem. Estávamos em frente à padaria em que eu costumava comprar sonhos quando era criança. Na porta fechada, havia um aviso:

“É com imenso pesar que comunicamos o falecimento do Sr ...”

Mais embaixo, o endereço e o horário do enterro. Estava acontecendo naquele momento. Corremos para lá. O cara amarelo e eu. O sonho e eu. De longe, algumas poucas pessoas em volta do túmulo, jogando flores enquanto choravam. De repente, um lindo garotinho puxou minha saia, sinalizando que queria falar comigo:

- Moça, você é a ...?
- Sim, sou eu mesma. Que posso fazer por você, minha criança?
- Meu avô deixou isso arrumado pra você ontem, antes dele ir dormir pra sempre. Ele disse que você viria hoje e pediu pra que eu lhe entregasse, caso ele não conseguisse.

Por um momento, todas as palavras que eu sabia sumiram da cabeça, da garganta, do coração. Só consegui suspirar bem forte com os olhos fechados, pegar o presente, agradecer e dar um beijo na testa da criança.

- Obrigada, minha criança, muito obrigada.

Do lado de fora, um papelzinho dobrado, com algumas palavras bambas escritas em preto, colado sobre o presente:

Querida ...,

Um sonho sempre se realiza, mas não necessariamente na exata forma como o sonhamos. Todas as coisas que nos acontecem são reflexos ou projeções de um sonho que tivemos. Se deixarmos a memória escapar por entre os pensamentos, eles podem se juntar de uma forma nova, completamente nômade, nos proporcionando sempre apagar, transcrever, reviver e sonhar a qualquer momento.

Com sonhos,

Sr ....

Perdi o pouco de fôlego que ainda me restava. Quando levantei o papel, pude ver mais claramente o presente: era uma caixinha quadrada, com uma tampinha vermelho sangue, do tamanho da palma da minha mão.


Primeiro texto de 2013, escrito nessa mesma madrugada, saído fresquinho do forno.