segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

As vozes da consciência



Foi só a maldita bateria do meu celular ter acabado, assim que coloquei os fones de ouvido, no momento em que pisei fora do prédio, pro meu inferno começar. Andar sozinha até em casa sem música me deixa triste, e nem o sol daquela tarde, que parecia iluminar toda a extensão cabível do universo naquele dia, estava desviando o pensamento dos incontáveis quarenta minutos até aquele maldito bairro. Tirei o casaco, respirei fundo e dei o primeiro passo. Resolvi ir pelo caminho mais longo, por mais paradoxal que pareça. Não me importava mais. Já que estava sem música, era melhor absorver todos os sons existentes permitidos (e os proibidos também). Entrei em um estado de completa recusa aos outros sentidos. Tateava, cheirava, olhava e lambia pelos ouvidos. Escutava pelo coração. Divagava enquanto andava. Foi quando comecei a reparar nas meias conversas que escutamos quando passamos por pessoas conversando na rua.
- Você faz uma promessa pra (carros me atrapalham nessa parte)...Ou então você faz qualquer outra coisa.
Eram duas crianças andando lentamente, e eu as cortava no passeio justamente por conta do adjetivo que acompanha o andar. Será que algum deles estava com medo de ficar de recuperação? Será que eram filhos que escutaram os pais conversando sobre a possível separação?
Continuei andando, virando a esquina. Desliguei-me por um momento quando passei por dentro da feira de rua. As cores me fascinavam e o cheiro de fritura de pastel lembrava que a fome começava a aparecer. Foi quando uma linda garotinha ruiva apontou ao longe, puxando a mão do homem que estava com ela, dizendo:
- Pai, olha lá! Tem dois!
Essa foi difícil de imaginar. Afinal “tem dois” o que? Dois pastéis queimando em alguma barraca? Dois moços vendendo algodão-doce? Dois gatos deitados no chão? Tinham todas as duas coisas no masculino que eu podia imaginar. Preferi deixar a alegria da feira para trás e ultrapassar toda a praça, tentando tapar os ouvidos com a força do pensamento.
Virei a esquina. A noite caía e eu ainda estava longe de casa. Dois jovens conversavam em seus carrões, com uma garrafa de cerveja em cima de ambos os tetos dos carros.
- Nem se ele vender ela barato acho que eu fico.
Essa eu nem ousei imaginar. Seja lá o que for, tenho certeza que poderiam comprar pelo preço que fosse. Confirmei uma hipótese cogitada mentalmente, quando ouvi a seguinte frase aleatória de um dos garotos.
- Só fico fazendo serviço assim...Esse cara faz, faz, faz, e...não é?
É. Era melhor continuarem bebendo ali. E era melhor eu apertar o passo.
Havia chegado à rua mais tradicional em que eu passava onde, faça sol, faça chuva, faça dia, faça noite, os velhinhos ficavam sentados, incansáveis, jogando baralho. Foi quando um senhor, todo em tons pastéis, comentou com sua dupla:
- Teve um belo dia oito...nove...dez e pouca da manhã...
Fato é que a tal coisa aconteceu em algum desses horários, ou em nenhum desses. Pensei em cartas, baralho e velhinhos. Então concluí, quase que com prepotência, que a única coisa que poderiam estar fazendo era jogando baralho naquele mesmo lugar. O horário pouco importava. Nenhum deles usava relógio. Por isso, entendi a indecisão do senhor bege.
Atravessei a rua. Estava próxima a um cruzamento no qual, tinha certeza, haveria também  um cruzamento de vozes estranhas e poucas hipóteses.
- Eu tô querendo pegar férias. (Um trabalhador escorado na porta da loja, conversando com outro funcionário.)
- Você vai demorar? (Uma mulher na porta de um edifício, direcionada ao marido que saía com o carro.)
- Você é muito fraca na sua fé. (Uma senhora de mãos dadas com uma criança, conversando lado a lado com uma possível amiga.)
- Você disse que tava na outra vaga...Aquela dali! (Uma moça impaciente, com o possível namorado.)
Não tirei conclusões, não devaneei, nem fiquei imaginando resultados. Continuei andando, rindo sem mostrar os dentes e com a cabeça baixa. Já estava na rua de casa e podia ver minha pequenininha, lá ao fundo. Comecei a refletir sobre o que estava fazendo. Passando por tantas conversas. Passando nem um pouco alheia às vidas que, supostamente, são alheias a mim. Tudo culpa desse caleidoscópio social que me alucina. Dizem que é feio reparar a conversa dos outros. Mas e quando as pessoas querem fazer com que você as repare? Não é falta de educação, não é falta do que fazer. Reparar essas meias conversas é quase que uma resposta, ainda que silenciosa, àqueles que não são notados.
Cheguei, finalmente, em casa. Abri a porta, acendi a luz. Joguei minha bolsa no sofá e corri para achar meu carregador. Coloquei meu celular para carregar. E ainda pensando numa suposta teoria que minha mente incansável resolveu inventar hoje, abri a janela da sala. Foi quando ouvi duas pessoas falarem ao longe. O tom era alto, mas não eram gritos:
- Se tivesse decência não fazia isso!
- Se fosse ruim não fazia!
Vesti a carapuça e fechei a janela. Prometi a mim mesma que só prestaria atenção em conversas esporádicas de rua quando tivesse a certeza de que meu celular estaria com bateria suficiente para, a qualquer momento, me tirar daquele mundo de vozes.

Conto escrito no dia 1º de agosto de 2010, na última tarde das férias de inverno. Postado originalmente em agosto de 2010 na minha antiga Rua das Ilusões.