quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ao lado dos outros cascos


O celular ainda não havia tocado. Do alto do quinto andar fitava o céu, na esperança de que fizesse mover a Lua. Ninguém a questionava, e desde então passou a achar interessante a idéia de morar sozinha no prédio mais alto da larga avenida. Os móveis bastavam-se em suas cores semidesbotadas de invernos passados. Rondou pela sala, através do escuro, em direção à cozinha. Abriu a geladeira e sentiu-se bêbada. Não ter saído naquela noite começava a fazer sentido. Olhou para o parapeito da janela para ver se a luz do celular estava acesa, sinal de que poderia estar tocando. Não estava. Abriu a primeira garrafa, sentou no banquinho da bancada da cozinha e a bebeu, até o fim. Deixou-a vazia na pia, ao lado dos outros cascos. Apoiou a mão esquerda sobre o queixo e sentiu os olhos cansados. Teve um lapso de memória ao mesmo tempo em que se esquivou para trás, sem se levantar, para conferir o celular novamente. Nada. Levantou-se, tirou o salto alto e o brinco pesado. Colocou-os na pia, ao lado dos outros cascos. Apagou a luz da cozinha e voltou para a estaca zero. Mão esquerda na cintura, mão direita coçando a testa. Olhou novamente para o céu. Pensou alto. Resolveu retornar à cozinha. Pegou a segunda garrafa, sentou-se no banquinho da bancada e a bebeu, até o meio. Despejou o resto na pia e colocou-a, vazia, ao lado dos outros cascos. Que merda ainda fazia rondando por apenas dois cômodos? Foi em direção ao seu quarto, pegando o celular só por precaução, que ainda estava no mesmo lugar. Jogou-o em cima da cama, desprezando qualquer tipo de queda posterior. Abriu o guarda-roupa e pegou seu melhor vestido, que não era necessariamente o mais caro. Era azul, manchado por natureza, curto e tomara-que-caia. Não caiu. Grudou no corpo como uma segunda pele. Entrou na suíte, retocou a maquiagem borrada de tanto esfregar os olhos sonolentos. Apagou a luz, pegou o celular, colocou-o de volta no parapeito da janela e voltou à cozinha. Colocou os sapatos e o brinco pesado, que estavam ao lado dos outros cascos, de volta no corpo. Abriu a geladeira, pegou outra garrafa de vinho e bebeu, no bico, até onde agüentava. Quando foi colocar a terceira garrafa na pia, a força desmedida resultou num estardalhaço de vidros na madrugada. Riu e deixou pra lá. Contanto que não manchasse mais o vestido. Já cambaleava. Na volta para o parapeito, o caminho parecia triplicado, contornado por obstáculos, os quais esbarrou a perna ao ultrapassar. Enfim, chegou. Sentou-se na janela, com as pernas para fora; e buscando forças internas, gritou à avenida: eu vou sair de casa! No parapeito, ao seu lado, o celular acendeu. O susto misturou-se com a ânsia de capturá-lo rapidamente e, num vacilo, ela escorregou. Do alto do céu, a Lua fitava a mulher estirada na calçada, na esperança de que fizesse movê-la. Do parapeito da janela, o sinal era apenas de bateria fraca. Seu sangue espalhou-se, até o fim. Deixou-se vazia na rua, ao lado dos outros cascos.

Conto com gosto de vinho, postado originalmente em 21 de outubro de 2010 na minha antiga Rua das Ilusões.

6 comentários:

  1. Que perfeição! Meu coração deu um pulo descontrolado no peito. Amo seus textos.

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    1. Estou longe da perfeição, Elenice! Mas o movimento do seu coração, relatado por você, me deixa muito feliz! Eu quero esse sentimento e mais nada. Obrigada pela leitura! :)

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  2. Marquei fantástico porque não havia outra opção melhor para ser marcada. Já te elogiei no chat, no twitter mas vou elogiar de novo, porque elogio nunca é demais. Esse é o melhor texto que você escreveu, para mim, e um dos melhores que já li de todos os lugares, de todos os autores. Fico muito feliz que você escreva essas coisas maravilhosas para deixar meu dia com um pouco de um "je ne sais quoi" (francé kkk). A-DO-REI!

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    1. hahahahahaha Fico muito feliz MESMO que você tenha gostado tanto, Gusta! De verdade, obrigada por sempre ler meus escritos e comentar! Quero continuar melhorando sempre. Como eu sempre digo, eu gosto de causar sentimentos diversos com as palavras que escrevo. Fico lisonjeada que lhe causei isso! Obs.: Francé é chiqué. kkkkk Obrigada de novo! :)

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  3. Gente! O seu melhor texto. Tô relendo pra ver se é isso tudo mesmo e não tenho nenhuma dúvida quanto a isso. Parabéns, Bruna! Nunca pare de escrever. Por mim, por você, pelos que amam essas palavras que aqui estão.

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    1. Que isso, Deza! São seus olhos! Mas fico muito feliz mesmo por lhe causar algo com minhas palavras! Está anotado, viu. Escrevo porque preciso! Tenha certeza que nunca vou parar. E obrigada, de novo, pelos elogios lindos!

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