quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tio Leleno está sorrindo


Tio Leleno está agora contando piadas para os anjos. Sorridente, faz graça da vida lá no céu. Tio Leleno olha aqui pra baixo, e estamos todos olhando pra ele.

"Um ano, tio Leleno!", eu grito daqui de baixo. Um ano que você não me conta uma piada! Tudo bem, eu entendo. Você agora tem outras pessoas pra alegrar. Mas veja, estou muito enciumada com esses seus novos amigos. Quem é que vai me dar doce depois do almoço quando eu deixar a marmita do vô no bar? Quem é que vai me dar uma latinha de suco nesses dias quentes de verão? Quem é que vai me levar pra andar de moto no pomar da roça, ralando o braço por entre os galhos que passam ligeiros? Quem é que vai me dar um beijo de felicidade, padrinho? Quem é que vai fazer com que eu veja graça nessa vida chata? Quem é que vai estragar as fotos de formatura, casamento e aniversário pondo um véu na cara das sobrinhas, pondo uma bisnaga de pão na cara das pessoas, sacaneando todo mundo com alguma coisa? Poxa, tio! Sacanagem sua ficar aí conversando com esses amigos novos! Eu entendo que você tenha levado outros amigos que moravam aqui pra te fazerem companhia, mas você faz uma falta do caramba aqui embaixo! No último churrasco, adivinha quem faltou? No último Natal, nos últimos aniversários, no batizado do Rafinha... Só te perdoo mais ou menos porque você me viu concluir o Ensino Médio. Mas eu queria tanto te ver aqui quando eu terminar a faculdade! É, tio, você é foda. Nem pra estar aqui pra nos contar uma piada, bagunçar meu cabelo, apertar meu nariz. Mas tudo bem! Como eu disse, a gente te perdoa por essas faltas. Mas trate de estar com uma piada pronta, me esperando aí em cima, quando eu for te visitar.

Tio Leleno começou a contar piadas no dia 29-08-1964 e contou a última piada aqui embaixo no dia 25-10-2011.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

(De)feito



Todos olham
ninguém comenta

Todos querem
ninguém aguenta

Todos amam
ninguém se esquenta

Todos passam
ninguém se lembra

Ninguém chora
ninguém lamenta
ninguém inventa
ninguém se arrebenta

Todos comentam
ninguém olha

Todos aguentam
ninguém quer

Todos se esquentam
ninguém ama

Todos se lembram
ninguém passa

Todos se arrebentam
todos inventam
todos lamentam
todos choram

E foi feito o efeito
do defeito feito

De fato disfarçado de causa
de fato, disfarçado de causa...

Gil falou
Todo mundo e Ninguém

Alguém diz
Todo mundo é Ninguém

E a culpa é de quem?


Hoje mesmo, há 10 minutos atrás.

domingo, 7 de outubro de 2012

Inquietude


Os olhos, sempre os olhos
A matéria do poeta
A alma do talvez
As entranhas do possível
Do plausível, alcançável...
Ou não.

Podemos? Devemos? Esqueceremos?
Talvez, poeta possível
Impossível, alma plausível
Alcançável, entranhas dos olhos
Sim, somente sim.

Lutando pra se entregar
Lutando mais pra resistir
Existirá resistência entregue à luta
Ou a entrega do lutador?

O que não é meu? Coloco entre aspas.
Só que eu não tenho nada!
E "você"?


Poesia achada e perdida, escrita neste outubro de 2012.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ao lado dos outros cascos


O celular ainda não havia tocado. Do alto do quinto andar fitava o céu, na esperança de que fizesse mover a Lua. Ninguém a questionava, e desde então passou a achar interessante a idéia de morar sozinha no prédio mais alto da larga avenida. Os móveis bastavam-se em suas cores semidesbotadas de invernos passados. Rondou pela sala, através do escuro, em direção à cozinha. Abriu a geladeira e sentiu-se bêbada. Não ter saído naquela noite começava a fazer sentido. Olhou para o parapeito da janela para ver se a luz do celular estava acesa, sinal de que poderia estar tocando. Não estava. Abriu a primeira garrafa, sentou no banquinho da bancada da cozinha e a bebeu, até o fim. Deixou-a vazia na pia, ao lado dos outros cascos. Apoiou a mão esquerda sobre o queixo e sentiu os olhos cansados. Teve um lapso de memória ao mesmo tempo em que se esquivou para trás, sem se levantar, para conferir o celular novamente. Nada. Levantou-se, tirou o salto alto e o brinco pesado. Colocou-os na pia, ao lado dos outros cascos. Apagou a luz da cozinha e voltou para a estaca zero. Mão esquerda na cintura, mão direita coçando a testa. Olhou novamente para o céu. Pensou alto. Resolveu retornar à cozinha. Pegou a segunda garrafa, sentou-se no banquinho da bancada e a bebeu, até o meio. Despejou o resto na pia e colocou-a, vazia, ao lado dos outros cascos. Que merda ainda fazia rondando por apenas dois cômodos? Foi em direção ao seu quarto, pegando o celular só por precaução, que ainda estava no mesmo lugar. Jogou-o em cima da cama, desprezando qualquer tipo de queda posterior. Abriu o guarda-roupa e pegou seu melhor vestido, que não era necessariamente o mais caro. Era azul, manchado por natureza, curto e tomara-que-caia. Não caiu. Grudou no corpo como uma segunda pele. Entrou na suíte, retocou a maquiagem borrada de tanto esfregar os olhos sonolentos. Apagou a luz, pegou o celular, colocou-o de volta no parapeito da janela e voltou à cozinha. Colocou os sapatos e o brinco pesado, que estavam ao lado dos outros cascos, de volta no corpo. Abriu a geladeira, pegou outra garrafa de vinho e bebeu, no bico, até onde agüentava. Quando foi colocar a terceira garrafa na pia, a força desmedida resultou num estardalhaço de vidros na madrugada. Riu e deixou pra lá. Contanto que não manchasse mais o vestido. Já cambaleava. Na volta para o parapeito, o caminho parecia triplicado, contornado por obstáculos, os quais esbarrou a perna ao ultrapassar. Enfim, chegou. Sentou-se na janela, com as pernas para fora; e buscando forças internas, gritou à avenida: eu vou sair de casa! No parapeito, ao seu lado, o celular acendeu. O susto misturou-se com a ânsia de capturá-lo rapidamente e, num vacilo, ela escorregou. Do alto do céu, a Lua fitava a mulher estirada na calçada, na esperança de que fizesse movê-la. Do parapeito da janela, o sinal era apenas de bateria fraca. Seu sangue espalhou-se, até o fim. Deixou-se vazia na rua, ao lado dos outros cascos.

Conto com gosto de vinho, postado originalmente em 21 de outubro de 2010 na minha antiga Rua das Ilusões.