domingo, 12 de agosto de 2012

Era uma alguém


Era uma vez uma menina que não dormia. Ela achava que vivia. De vez em quando, até existia, quando não encontrava com a morte naquele dia. Ela falava alemão, catalão e solidão. Ela não gostava de parágrafo-travessão. Ela não ligava pra ninguém. Enquanto isso jogava pedras nas janelas. Ela não ligava se eles não ligavam. Ela desligava. Pausava a mente pra todas aquelas mentiras. Fechava os olhos, estacionava o pensamento. Nada a atingia. Nem a mais agonizante vontade de chorar. Ela era uma mistura complexa de elementos históricos derivados de épocas tão remotas quanto o local até onde sua mente fantástica atingia. Ainda assim, ela permanecia constantemente no lugar de esperar. Esperar qualquer coisa. Desligada, esperava. Esperava que seus problemas se resolvessem se jogasse algumas colheres de açúcar na boca e mastigasse os pequenos grãos, imaginando que fossem as pessoas que ela mais odiava, obrigando-as a se tornarem doces. Ela era tolerante, ela via o lado bom. Cega pra tudo aquilo que a incomodava. Tão estupidamente banal e boçal. Tão ridiculamente crédula. Dava nomes às suas preocupações, socos na parede e pontapés nas portas. Suportava a existência inexistindo para si mesma. O príncipe encantado já havia morrido. E todos que haviam prometido ficar se foram. Todos que ficaram permaneceram por outros motivos. Nunca foi pra ela, nunca era por ela. Era “ela por ela” e só. Esperava conseguir um lugar pra acabar com a única coisa que ainda não tinha visto ainda: a vontade de viver. Observava. A única coisa que tinha vontade de manter na cabeça, era a frase com a qual tinha sonhado numa das poucas noites em que o sono fora visitá-la, depois de muito tempo sumido: “A vida agora é muitíssimo tolerante”. Quando esse agora chegaria? Ela se mantinha permanentemente em fases tristes, as quais todo mundo tem quando tudo está na mais perfeita paz e sintonia. Sabe-se lá porque ela sempre achava que faltava alguma coisa quando a harmonia reinava. Ela se sentia rejeitada, evitada, amada, ironizada, admirada e julgada, variando o verbo de acordo com a pessoa. O que, de fato, pensavam dela? Pensavam que ela pensava demais. Diziam que ela dizia de menos. Comentavam que ela não comentava, só consentia. Pedia doses extras dramáticas no bar mais próximo. Pintava as esperanças na porta antes de entrar. Saía com as mãos sujas de tinta e a boca inundada de sangue. Via o resto do que nem vinha. Vivia do resto que não existia. E, bêbada, dizia: “É só isso mesmo assim... Perder a vida agora é crime... É meu? Sou eu? Fui eu?”. A cabeça dela pesava, a boca tremia, os olhos ficavam inquietos, a raiva por si mesma tomava conta do seu corpo inteiro e as unhas, que antes arranhavam as outras pessoas, refletiam agora machucados feitos por ela mesma em seu próprio corpo. Fugia da própria sombra. Corria de espelhos, reflexos e reflexões.  Subia montanhas sem saber por quê. Quando via, já estava no topo, olhando em direção a todos os lugares aos quais não pertencia, pensando num lar, pensando em voltar. Mas pra onde? Com quem? Por quê? Era uma vez uma menina que não dormia. E ela não viveu feliz para sempre.

"Crowd: [chanting] Deh-Shay, Deh-Shay, Bah Sah Rah. Bah Sah Rah. / Bruce Wayne: What does that mean? / Prisoner: 'Rise'." (The Dark Knight Rises)

16 comentários:

  1. OMFG! Esse é o texto, com "o" destacado. Me deu inspiração pra escrever um conto sério hoje mesmo!!! Se ao menos eu tivesse ido ver o Batman uahauhahau... A-DO-REI!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. HAHAHAHAHAHHA Batman é foda demais! E poxa, muito obrigada pelo elogio, Gusta! E que honra que te inspirei! Vou ler e comentar no seu texto também! Obrigada mil vezes! :)

      Excluir
  2. Que triste, Bruna... =(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. =( Fiquei tão atônita com esse texto que, depois que o escrevi ontem no início da madrugada, só consegui ir dormir às 6:13h da manhã...

      Excluir
  3. Você me fez chorar por dentro com essas palavras. E é por isso que eu adoro tanto você e todos os milhões de significados que você coloca em seus textos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando vejo seu M. ali no início, já fico feliz, porque sei que o texto valeu a pena! Obrigada SEMPRE por esse carinho! Saber que meus textos te tocam tanto assim... É lindo! Eu também te adoro tanto, M.! Obrigada, de novo. Você também faz parte de todos esses significados!

      Excluir
  4. Sempre depressiva e excessivamente realista! Mas, como o Bane, você é um mal necessário!
    Continue dosando nossos dias com sua visão cru e verdadeira do que é o sentimento humano!
    Só se lembre que meu amor por vc também é um sentimento muito verdadeiro, e eu ainda sou muito humano! Pode falar coisa boa de se sentir, de vez em quando.
    Alias, não, deixe essas pra falar comigo, só comigo! Seus textos conseguem ficar ainda melhores com essa injeção extra de infelicidade!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amor da minha vida! Coisa mais linda do mundo! Quem diria que ler que sou "um mal necessário" me faria sentir tão bem? Ainda mais vindo de você! Meu amor por você também é um sentimento muito verdadeiro... Minha personagem tem essa mania de mostrar a realidade, mas é bom que nos deparemos com ela às vezes pra entender e reforçar o quão importante é o amor, a alegria de ter alguém pra compartilhar a vida. E sim! Por que você acha que por aqui não tem tanta felicidade? Eu gasto tudo com você, oras! Obrigada por me apoiar sempre. Obrigada por ser o melhor homem do mundo pra mim! Eu amo você! Pra sempre!

      Excluir
  5. Bruna, Bruna... quando é que você vai escrever algo que não seja assustadoramente bom?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Own, Giu! Que nada! Eu só tento expelir essas palavras o mais rápido possível de dentro de mim, e quase sempre não faz sentido. Mas "assustadoramente bom" é um elogio tão lindo que não posso negar, só agradecer muito! Obrigada mil vezes! Por tudo, sempre!

      Excluir
  6. Parabéns Bruna, muito bonito ...e triste...e real!

    ResponderExcluir
  7. Tive que parar tudo o que estava fazendo pra ler e reler o texto. Acho que que a perfeição passa longe, pois teu texto é bem mais que isso, Bruna.

    Adoro textos com frases curtas, sem muita pontuação. Acho que é esse teu modo de escrever que me encanta, sabe? Sei que a gente não encontra inspiração por aí em qualquer canta, na feira de domingo, no supermercado... Contudo, queria ler mais textos seus porque, posso dizer com toda a certeza, sou fã dos seus escritos!

    Bjs!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa, Adriel! Nem sei o que dizer quando leio seus comentários! Mais que perfeição? Que isso! Não mereço tanto! Muito obrigada por me ler, por gostar do meu modo de escrever... Nem sabia que eu tinha um "modo"! hahahaha Muito obrigada de coração. E pode deixar que estou tentanto escrever sempre e cada vez mais! Beijos :)

      Excluir

Caixa de sentimentos. Expresse-se.