domingo, 26 de agosto de 2012

Ponto com vista

     

     Aquela paisagem nunca havia feito sentido pra ela. Apoiava os braços sobre o parapeito da janela e segurava o rosto, virado para o lado direito, com cara de ressaca. A maquiagem da noite anterior ainda estava grudada nos olhos pouco abertos e a roupa do ontem cheirava a cigarro. Qual a graça em observar um cemitério? O sol daquela manhã que mal havia começado não a atingia diretamente, mas era suficiente para obrigá-la a apertar os olhos enquanto buscava algum sentido para aquela nuvem de pensamentos novos dentro de sua cabeça.
     Não sabia por qual motivo havia começado a reparar mais no cemitério, só sabia que era muito estranho ter o quarto de frente para lá. Todos os dias, levantava-se da cama sempre cambaleando, e dava um “bom dia” baixinho aos mortos. Antes de começar a pensar sobre isso, fazia como um deboche. Hoje fez em sinal de respeito. Nunca havia conhecido alguém que tivesse ou gostaria de ter um quarto de frente para um cemitério. Na verdade, nunca havia perguntando. Achava que as pessoas podiam se ofender ou taxá-la de feiticeira, bruxa e outras criaturas mágicas do tipo.
     Mas naquela manhã sentiu que acordou diferente. O frio na barriga havia aparecido depois de tanto tempo sem função no corpo dela. Sentia-se como se perdesse algo que nunca havia tido, mas que um dia teria. Não sabia se ficava feliz ou triste, não sabia como sistematizar, mas sabia que de alguma forma já estava sistematizado, com e sem interferência dela.
     Desceu o olhar para a direita e viu um amontoado de casas na continuação da sua rua. Do outro lado a mesma coisa, só que com menos casas. Desceu o olhar e viu a rua sem ninguém. Ameaçou um riso. Devia ser a única acordada àquela hora da manhã daquele dia. Nem ligou.  
     Lembrou-se do início de novembro, no Dia dos Mortos, em que o “bom dia” foi especial. Naquele dia o cemitério estava lotado. Ao longe, via pontinhos pretos caminhando por entre os túmulos como formigas perdidas no pote de açúcar. Até a área superior do cemitério, onde não havia muitos túmulos, estava ocupada. Imaginava as pessoas envoltas nos seus choros e velas com gosto de cadáveres e cheiro de flores recém-colhidas.
     Mas hoje não havia ninguém lá; e olhando devia ser só ela. Lembrou-se da harmonia da última música da noite anterior, lembrou que ia perder algo que não sabia ainda.
     Precisava logo entender a sensação que dominava o corpo todo e arrepiava seu tecido. Não sabia onde mais esconder-se de si mesma. A verdade a queimava junto com os raios solares, ainda intensos. Precisava fazer alguma coisa.  
     Saiu da janela e de casa correndo do jeito que ainda estava vestida. No desespero da busca pelo encontro desencontrado, corria a maior parte do tempo, minimizando os pensamentos confusos com a ofegante jornada até seu destino. Até o cemitério.


Primeira parte de um conto que pode ou não ter continuação, escrito em dezembro de 2010, com título de outubro de 2010, originalmente postado no meu antigo blog, o Rua das Ilusões.

domingo, 12 de agosto de 2012

Era uma alguém


Era uma vez uma menina que não dormia. Ela achava que vivia. De vez em quando, até existia, quando não encontrava com a morte naquele dia. Ela falava alemão, catalão e solidão. Ela não gostava de parágrafo-travessão. Ela não ligava pra ninguém. Enquanto isso jogava pedras nas janelas. Ela não ligava se eles não ligavam. Ela desligava. Pausava a mente pra todas aquelas mentiras. Fechava os olhos, estacionava o pensamento. Nada a atingia. Nem a mais agonizante vontade de chorar. Ela era uma mistura complexa de elementos históricos derivados de épocas tão remotas quanto o local até onde sua mente fantástica atingia. Ainda assim, ela permanecia constantemente no lugar de esperar. Esperar qualquer coisa. Desligada, esperava. Esperava que seus problemas se resolvessem se jogasse algumas colheres de açúcar na boca e mastigasse os pequenos grãos, imaginando que fossem as pessoas que ela mais odiava, obrigando-as a se tornarem doces. Ela era tolerante, ela via o lado bom. Cega pra tudo aquilo que a incomodava. Tão estupidamente banal e boçal. Tão ridiculamente crédula. Dava nomes às suas preocupações, socos na parede e pontapés nas portas. Suportava a existência inexistindo para si mesma. O príncipe encantado já havia morrido. E todos que haviam prometido ficar se foram. Todos que ficaram permaneceram por outros motivos. Nunca foi pra ela, nunca era por ela. Era “ela por ela” e só. Esperava conseguir um lugar pra acabar com a única coisa que ainda não tinha visto ainda: a vontade de viver. Observava. A única coisa que tinha vontade de manter na cabeça, era a frase com a qual tinha sonhado numa das poucas noites em que o sono fora visitá-la, depois de muito tempo sumido: “A vida agora é muitíssimo tolerante”. Quando esse agora chegaria? Ela se mantinha permanentemente em fases tristes, as quais todo mundo tem quando tudo está na mais perfeita paz e sintonia. Sabe-se lá porque ela sempre achava que faltava alguma coisa quando a harmonia reinava. Ela se sentia rejeitada, evitada, amada, ironizada, admirada e julgada, variando o verbo de acordo com a pessoa. O que, de fato, pensavam dela? Pensavam que ela pensava demais. Diziam que ela dizia de menos. Comentavam que ela não comentava, só consentia. Pedia doses extras dramáticas no bar mais próximo. Pintava as esperanças na porta antes de entrar. Saía com as mãos sujas de tinta e a boca inundada de sangue. Via o resto do que nem vinha. Vivia do resto que não existia. E, bêbada, dizia: “É só isso mesmo assim... Perder a vida agora é crime... É meu? Sou eu? Fui eu?”. A cabeça dela pesava, a boca tremia, os olhos ficavam inquietos, a raiva por si mesma tomava conta do seu corpo inteiro e as unhas, que antes arranhavam as outras pessoas, refletiam agora machucados feitos por ela mesma em seu próprio corpo. Fugia da própria sombra. Corria de espelhos, reflexos e reflexões.  Subia montanhas sem saber por quê. Quando via, já estava no topo, olhando em direção a todos os lugares aos quais não pertencia, pensando num lar, pensando em voltar. Mas pra onde? Com quem? Por quê? Era uma vez uma menina que não dormia. E ela não viveu feliz para sempre.

"Crowd: [chanting] Deh-Shay, Deh-Shay, Bah Sah Rah. Bah Sah Rah. / Bruce Wayne: What does that mean? / Prisoner: 'Rise'." (The Dark Knight Rises)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As fases


Coisas tais

Ela: Vai dançar comigo?
Ele: Mas eu não iria conseguir me conter. Iria dar problema...
Ela: Não me diga uma coisa dessas...
Ele: Você não está podendo me exigir nada não.
Ela: Vai que minhas exigências são boas?
Ele: Suas exigências, promessas, certezas...Vou esperar é deitado.
Ela: Doeu...
Ele: Não, pára. Só disse que não vou ficar contando com algo. Chegar na festa e ver você dançando com... Não iria ser bom. Por isso não quero contar com nada disso.
Ela: Quem sou eu pra pedir alguma coisa...
Ele: Você pode pedir qualquer coisa, mas a vida já me ensinou bastante coisa.
Ela: Posso pedir uma coisa então? Desculpa qualquer coisa.
Ele: Por que? Gosto muito de tudo isso.
Ela: Eu também...
Ele: Então vamos é ser feliz. Deixa a vida nos levar.
Ela: "Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu..."
Ele: Você ainda vai dar ótimas risadas. Mas não é uma coisa fácil. Às vezes, o calo dói.
Ela: Como você disse...
Ele: Vamos escrever um manual juntos? 1º: Eu me amo mais que qualquer pessoa.
Ela: 2º: Eu sou muito feliz.
Ele: Ótimo.
Ela: Dá pra sintetizar: eu me amo e me sinto feliz.
Ele: Deve ser por isso que, de alguma forma, nós nos amamos e somos felizes.
Ela: Fiquei sem o que dizer...
Ele: Ah, se fosse mais de perto... 


No corredor
 
Ela: Acho que faço mal em lhe dizer essas coisas...
Ele: Que mal há em procurar a felicidade? 


O café
 
Ele: Tentei te dar espaço, ar livre, não te sufocar…Mas você transborda tudo.
Ela: Tenho medo de você queimar a boca ou pagar a língua.
Ele: Não me importa que o gosto fique amargo. Só me importa o gosto.


Na rede
 
Ela: Eu estava com saudade.
Ele: Eu também, mas tinha medo.
Ela: Não sei porquê medo.
Ele: Não sei se você compreenderia o medo.
Ela: Eu te amo, mesmo com as interrupções.
Ele: Eu te amo. Sem interrupções. 


No celular

Ele: Alô? 
Ela: Oi! Você já foi embora?
Ele: Ah... Quase! Tô na rodoviária esperando o ônibus chegar...
Ela: Nem deu pra gente se ver direito hoje à tarde...
Ele: Nem me fala. Mas pelo menos vi seu rostinho, ainda que por cinco minutos.
Ela: E agora você vai demorar séculos pra voltar aqui...
Ele: Não pense assim. Minha saudade é do tamanho da sua.
Ela: Infinita?
Ele: Infinita e eterna, assim como você é pra mim.


Final de conversa

Ele: Um beijo, você sabe onde.
Ela: Outro beijo, nesse lugar também. 


"Ela lhe contou histórias, ele a ensinou a voar. Amavam-se, mas ele não queria crescer."