sábado, 19 de maio de 2012

O sequestrador de afetos



E se um dia sem nada você acordasse?
No chão o corpo sem cama
A pele sem roupa, um arrepio
Encostando no canto do quarto
O rosto limpo no ladrilho frio?

Você já não tem mais quarto. Percebe que não tem mais casa. Está jogada sob um chão e os ladrilhos já não são mais fartos. Ainda deitada, você tenta ver, mas sua vista começa a embaçar. E de tonturas tantas, um borrão alastra-se por dentro dos seus olhos, cegando-a sem pobres esperanças. O desespero maior se torna, obrigando-a a passar a mão pelo crânio. Nota uma superfície calva, sem um fio apenas, por onde sua mão desliza. Tenta, por fim, os dedos no rosto sentir, mas insensível demais já está. Sua alma julgou-se imortal, matou seu próprio corpo, provando para si que, de verdade, nunca existiu.

A inexistência sente saudade
Na carne de um ser invertebrado
E o desejo de reexistir um dia
Já morre sem pele, despedaçado

"Her lie reflected my lie. And suddenly, I felt nothing. I couldn't cry, so once again, I couldn't sleep."

4 comentários:

  1. Você é a única pessoa além do próprio autor que eu deixaria escrever uma continuação pra Clube da Luta. Perfeitamente melancólico, linda!

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    1. Você quer que eu fique me achando com isso sim ou claro? Coisa mais linda do mundo! Obrigada sempre!

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  2. Ler isso e imaginar alguém se assustando com a própria existência. Só você me faz fazer isso!

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    1. Acho que com meu novo "teor" se alterando farei você sentir isso mais vezes! Veremos!

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