segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

As vozes da consciência



Foi só a maldita bateria do meu celular ter acabado, assim que coloquei os fones de ouvido, no momento em que pisei fora do prédio, pro meu inferno começar. Andar sozinha até em casa sem música me deixa triste, e nem o sol daquela tarde, que parecia iluminar toda a extensão cabível do universo naquele dia, estava desviando o pensamento dos incontáveis quarenta minutos até aquele maldito bairro. Tirei o casaco, respirei fundo e dei o primeiro passo. Resolvi ir pelo caminho mais longo, por mais paradoxal que pareça. Não me importava mais. Já que estava sem música, era melhor absorver todos os sons existentes permitidos (e os proibidos também). Entrei em um estado de completa recusa aos outros sentidos. Tateava, cheirava, olhava e lambia pelos ouvidos. Escutava pelo coração. Divagava enquanto andava. Foi quando comecei a reparar nas meias conversas que escutamos quando passamos por pessoas conversando na rua.
- Você faz uma promessa pra (carros me atrapalham nessa parte)...Ou então você faz qualquer outra coisa.
Eram duas crianças andando lentamente, e eu as cortava no passeio justamente por conta do adjetivo que acompanha o andar. Será que algum deles estava com medo de ficar de recuperação? Será que eram filhos que escutaram os pais conversando sobre a possível separação?
Continuei andando, virando a esquina. Desliguei-me por um momento quando passei por dentro da feira de rua. As cores me fascinavam e o cheiro de fritura de pastel lembrava que a fome começava a aparecer. Foi quando uma linda garotinha ruiva apontou ao longe, puxando a mão do homem que estava com ela, dizendo:
- Pai, olha lá! Tem dois!
Essa foi difícil de imaginar. Afinal “tem dois” o que? Dois pastéis queimando em alguma barraca? Dois moços vendendo algodão-doce? Dois gatos deitados no chão? Tinham todas as duas coisas no masculino que eu podia imaginar. Preferi deixar a alegria da feira para trás e ultrapassar toda a praça, tentando tapar os ouvidos com a força do pensamento.
Virei a esquina. A noite caía e eu ainda estava longe de casa. Dois jovens conversavam em seus carrões, com uma garrafa de cerveja em cima de ambos os tetos dos carros.
- Nem se ele vender ela barato acho que eu fico.
Essa eu nem ousei imaginar. Seja lá o que for, tenho certeza que poderiam comprar pelo preço que fosse. Confirmei uma hipótese cogitada mentalmente, quando ouvi a seguinte frase aleatória de um dos garotos.
- Só fico fazendo serviço assim...Esse cara faz, faz, faz, e...não é?
É. Era melhor continuarem bebendo ali. E era melhor eu apertar o passo.
Havia chegado à rua mais tradicional em que eu passava onde, faça sol, faça chuva, faça dia, faça noite, os velhinhos ficavam sentados, incansáveis, jogando baralho. Foi quando um senhor, todo em tons pastéis, comentou com sua dupla:
- Teve um belo dia oito...nove...dez e pouca da manhã...
Fato é que a tal coisa aconteceu em algum desses horários, ou em nenhum desses. Pensei em cartas, baralho e velhinhos. Então concluí, quase que com prepotência, que a única coisa que poderiam estar fazendo era jogando baralho naquele mesmo lugar. O horário pouco importava. Nenhum deles usava relógio. Por isso, entendi a indecisão do senhor bege.
Atravessei a rua. Estava próxima a um cruzamento no qual, tinha certeza, haveria também  um cruzamento de vozes estranhas e poucas hipóteses.
- Eu tô querendo pegar férias. (Um trabalhador escorado na porta da loja, conversando com outro funcionário.)
- Você vai demorar? (Uma mulher na porta de um edifício, direcionada ao marido que saía com o carro.)
- Você é muito fraca na sua fé. (Uma senhora de mãos dadas com uma criança, conversando lado a lado com uma possível amiga.)
- Você disse que tava na outra vaga...Aquela dali! (Uma moça impaciente, com o possível namorado.)
Não tirei conclusões, não devaneei, nem fiquei imaginando resultados. Continuei andando, rindo sem mostrar os dentes e com a cabeça baixa. Já estava na rua de casa e podia ver minha pequenininha, lá ao fundo. Comecei a refletir sobre o que estava fazendo. Passando por tantas conversas. Passando nem um pouco alheia às vidas que, supostamente, são alheias a mim. Tudo culpa desse caleidoscópio social que me alucina. Dizem que é feio reparar a conversa dos outros. Mas e quando as pessoas querem fazer com que você as repare? Não é falta de educação, não é falta do que fazer. Reparar essas meias conversas é quase que uma resposta, ainda que silenciosa, àqueles que não são notados.
Cheguei, finalmente, em casa. Abri a porta, acendi a luz. Joguei minha bolsa no sofá e corri para achar meu carregador. Coloquei meu celular para carregar. E ainda pensando numa suposta teoria que minha mente incansável resolveu inventar hoje, abri a janela da sala. Foi quando ouvi duas pessoas falarem ao longe. O tom era alto, mas não eram gritos:
- Se tivesse decência não fazia isso!
- Se fosse ruim não fazia!
Vesti a carapuça e fechei a janela. Prometi a mim mesma que só prestaria atenção em conversas esporádicas de rua quando tivesse a certeza de que meu celular estaria com bateria suficiente para, a qualquer momento, me tirar daquele mundo de vozes.

Conto escrito no dia 1º de agosto de 2010, na última tarde das férias de inverno. Postado originalmente em agosto de 2010 na minha antiga Rua das Ilusões.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Gramática ou Poesia



Você, meu adjunto adverbial
Faz com que eu, agente da passiva
Fique louca por tentar adivinhar
O que é que você quer me dizer, sujeito

A conjunção nos espera
E a fila já está próxima ao predicado
Não espere que a concordância
Seja parâmetro nessa denotação

É tudo conotação!

A prosódia que nos atinge, querido
Faz com que a regência seja quase que
Ortográfica?

A mesóclise, meu caro, agora fala
Entender-te-tento
Amar-te-estou
Ficar-não-sei
Deixar-te-ei

Você, vocativo, está brigando com meu coração
Lá nossos nomes não mais estão
A sintaxe, senhor sujeito, está fora de colocação

Sou seu antônimo
Palavra composta por justaposição
Bem-me-quer, não
Pois você é radical
Me sufixa, afixa
E não liga pra estética, não

Os fonemas estão de prova
Esse amor não vai dar par não
O estudo dos nossos signos, meu caro
Não vai ter representação

Sou uma intertextualidade mal feita de você
E os aforismos em que me meto
São só pra ver
Se entre nós dois vai ter

Gramática
ou
Poesia


Poesia com gosto de feriado, escrita hoje durante todo o dia.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tio Leleno está sorrindo


Tio Leleno está agora contando piadas para os anjos. Sorridente, faz graça da vida lá no céu. Tio Leleno olha aqui pra baixo, e estamos todos olhando pra ele.

"Um ano, tio Leleno!", eu grito daqui de baixo. Um ano que você não me conta uma piada! Tudo bem, eu entendo. Você agora tem outras pessoas pra alegrar. Mas veja, estou muito enciumada com esses seus novos amigos. Quem é que vai me dar doce depois do almoço quando eu deixar a marmita do vô no bar? Quem é que vai me dar uma latinha de suco nesses dias quentes de verão? Quem é que vai me levar pra andar de moto no pomar da roça, ralando o braço por entre os galhos que passam ligeiros? Quem é que vai me dar um beijo de felicidade, padrinho? Quem é que vai fazer com que eu veja graça nessa vida chata? Quem é que vai estragar as fotos de formatura, casamento e aniversário pondo um véu na cara das sobrinhas, pondo uma bisnaga de pão na cara das pessoas, sacaneando todo mundo com alguma coisa? Poxa, tio! Sacanagem sua ficar aí conversando com esses amigos novos! Eu entendo que você tenha levado outros amigos que moravam aqui pra te fazerem companhia, mas você faz uma falta do caramba aqui embaixo! No último churrasco, adivinha quem faltou? No último Natal, nos últimos aniversários, no batizado do Rafinha... Só te perdoo mais ou menos porque você me viu concluir o Ensino Médio. Mas eu queria tanto te ver aqui quando eu terminar a faculdade! É, tio, você é foda. Nem pra estar aqui pra nos contar uma piada, bagunçar meu cabelo, apertar meu nariz. Mas tudo bem! Como eu disse, a gente te perdoa por essas faltas. Mas trate de estar com uma piada pronta, me esperando aí em cima, quando eu for te visitar.

Tio Leleno começou a contar piadas no dia 29-08-1964 e contou a última piada aqui embaixo no dia 25-10-2011.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

(De)feito



Todos olham
ninguém comenta

Todos querem
ninguém aguenta

Todos amam
ninguém se esquenta

Todos passam
ninguém se lembra

Ninguém chora
ninguém lamenta
ninguém inventa
ninguém se arrebenta

Todos comentam
ninguém olha

Todos aguentam
ninguém quer

Todos se esquentam
ninguém ama

Todos se lembram
ninguém passa

Todos se arrebentam
todos inventam
todos lamentam
todos choram

E foi feito o efeito
do defeito feito

De fato disfarçado de causa
de fato, disfarçado de causa...

Gil falou
Todo mundo e Ninguém

Alguém diz
Todo mundo é Ninguém

E a culpa é de quem?


Hoje mesmo, há 10 minutos atrás.

domingo, 7 de outubro de 2012

Inquietude


Os olhos, sempre os olhos
A matéria do poeta
A alma do talvez
As entranhas do possível
Do plausível, alcançável...
Ou não.

Podemos? Devemos? Esqueceremos?
Talvez, poeta possível
Impossível, alma plausível
Alcançável, entranhas dos olhos
Sim, somente sim.

Lutando pra se entregar
Lutando mais pra resistir
Existirá resistência entregue à luta
Ou a entrega do lutador?

O que não é meu? Coloco entre aspas.
Só que eu não tenho nada!
E "você"?


Poesia achada e perdida, escrita neste outubro de 2012.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ao lado dos outros cascos


O celular ainda não havia tocado. Do alto do quinto andar fitava o céu, na esperança de que fizesse mover a Lua. Ninguém a questionava, e desde então passou a achar interessante a idéia de morar sozinha no prédio mais alto da larga avenida. Os móveis bastavam-se em suas cores semidesbotadas de invernos passados. Rondou pela sala, através do escuro, em direção à cozinha. Abriu a geladeira e sentiu-se bêbada. Não ter saído naquela noite começava a fazer sentido. Olhou para o parapeito da janela para ver se a luz do celular estava acesa, sinal de que poderia estar tocando. Não estava. Abriu a primeira garrafa, sentou no banquinho da bancada da cozinha e a bebeu, até o fim. Deixou-a vazia na pia, ao lado dos outros cascos. Apoiou a mão esquerda sobre o queixo e sentiu os olhos cansados. Teve um lapso de memória ao mesmo tempo em que se esquivou para trás, sem se levantar, para conferir o celular novamente. Nada. Levantou-se, tirou o salto alto e o brinco pesado. Colocou-os na pia, ao lado dos outros cascos. Apagou a luz da cozinha e voltou para a estaca zero. Mão esquerda na cintura, mão direita coçando a testa. Olhou novamente para o céu. Pensou alto. Resolveu retornar à cozinha. Pegou a segunda garrafa, sentou-se no banquinho da bancada e a bebeu, até o meio. Despejou o resto na pia e colocou-a, vazia, ao lado dos outros cascos. Que merda ainda fazia rondando por apenas dois cômodos? Foi em direção ao seu quarto, pegando o celular só por precaução, que ainda estava no mesmo lugar. Jogou-o em cima da cama, desprezando qualquer tipo de queda posterior. Abriu o guarda-roupa e pegou seu melhor vestido, que não era necessariamente o mais caro. Era azul, manchado por natureza, curto e tomara-que-caia. Não caiu. Grudou no corpo como uma segunda pele. Entrou na suíte, retocou a maquiagem borrada de tanto esfregar os olhos sonolentos. Apagou a luz, pegou o celular, colocou-o de volta no parapeito da janela e voltou à cozinha. Colocou os sapatos e o brinco pesado, que estavam ao lado dos outros cascos, de volta no corpo. Abriu a geladeira, pegou outra garrafa de vinho e bebeu, no bico, até onde agüentava. Quando foi colocar a terceira garrafa na pia, a força desmedida resultou num estardalhaço de vidros na madrugada. Riu e deixou pra lá. Contanto que não manchasse mais o vestido. Já cambaleava. Na volta para o parapeito, o caminho parecia triplicado, contornado por obstáculos, os quais esbarrou a perna ao ultrapassar. Enfim, chegou. Sentou-se na janela, com as pernas para fora; e buscando forças internas, gritou à avenida: eu vou sair de casa! No parapeito, ao seu lado, o celular acendeu. O susto misturou-se com a ânsia de capturá-lo rapidamente e, num vacilo, ela escorregou. Do alto do céu, a Lua fitava a mulher estirada na calçada, na esperança de que fizesse movê-la. Do parapeito da janela, o sinal era apenas de bateria fraca. Seu sangue espalhou-se, até o fim. Deixou-se vazia na rua, ao lado dos outros cascos.

Conto com gosto de vinho, postado originalmente em 21 de outubro de 2010 na minha antiga Rua das Ilusões.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Lacunas


Hoje acordei _____. A chuva na _____ fazia com que as _____ caíssem no _____. Tentei _____ por um momento, mas logo a _____ voltou a me _____. Queria que aquele _____ acabasse. Queria que _____ voltasse. Por que as _____ insistem em _____ os outros? Não há _____, só _____. Eu _____, juro que _____. Mas depois isso _____, me _____ e me deixou _____. Eu queria _____ sem ser _____. Eu só queria poder _____. Se eu não _____, talvez você _____. Não _____ muito. Só quero que você _____ de novo. Eu _____ você. É _____! Será que você _____ como eu? O melhor mesmo seria _____ tudo isso e _____ daqui a um ano. O resto não _____. A vida é muito _____, dizem. Será que não é hora de _____? Apesar de tudo, agora as _____ são mais _____. E eu consigo _____ o porquê disso tudo. Agora sei que _____ não passa de _____ que eu _____ um dia. Se eu disser que _____, você _____? Estou _____ demais para _____. Nossos desencontros _____ cada vez mais _____. Faço _____ sem perceber. Quando comecei a _____ a situação, as coisas já estavam _____. Mal pude acreditar que _____ tivesse sido _____. Depois de mais de três meses sem _____ lá, agora _____ fica mais _____. Ao invés de entender _____, entendi _____. Continuava a chover, e eu continuava a _____. Quanto tempo mais para _____? Agora a _____ só cresce. Vou tentando _____ a _____ e esquecer meu _____. Para mim, o ideal seria um _____ o qual _____ vivessem _____ sem _____.  Não seria efêmero, porém seria _____. E antes de _____, estou me _____ dessa _____. As pessoas têm que se _____ com isso. É verdade, estou _____ assim como _____ quando nos _____ há anos atrás. Eu só fico esperando que _____ venham até onde _____ agora. Não me deixo _____, apesar de estar claramente _____. Não sei quanto _____ ainda _____. Só que quando _____, quero estar ao seu lado. Estou _____ nessa _____. Agora estou _____ e _____. Minha _____ me envergonha. Mas tenho que _____. Tenho que _____ isso. Se depender de mim, a chuva lá  _____ na _____ continua até o amanhecer. Só pra você _____ como é chegar _____ em casa. Só pra você entender que lacunas não são apenas espaços vazios ou sentimentos que não existem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O ler


Certo dia me perguntaram "o que era leitura". E eu, meio ingênua, respondi mais ou menos assim:

Ler é sempre "mais" e "melhor". Mais conhecimento, melhor escrita, mais vida, melhor vocabulário, mais experiência. Principalmente experiência. Se duas pessoas começarem a ler o mesmo livro, ao mesmo tempo, terminando-o no mesmo dia, ainda assim a experiência que cada uma teve será diferente da outra. Isso é o mágico da leitura: a possibilidade de, num mesmo mundo escrito, termos vários mundos nas mais diversas formas, e dos jeitos que cada um os enxerga. A leitura é universal, alcançável e totalmente libertadora. Quando lemos, além de nos inserirmos nesse mundo ao qual estamos submersos através das letras, passamos a fazer parte dele, e ele passa a fazer parte de nós. Além de participarmos, temos a oportunidade de visitar a percepção de alguém sobre determinado ponto, tendo a liberdade de utilizar, memorizar, guardar ou passar essa informação para frente. Aprendendo a entender essas percepções, nos tornamos aptos a testemunhar e relatar nossa própria história, e passamos a ser os autores e protagonistas de nossas vidas. Cada livro novo é como aprender novamente a andar, a falar ou a ver as horas no relógio de ponteiro. E não precisamos ser necessariamente crianças para isso: esse aprender se renova em qualquer idade e a qualquer momento. Basta parar por um momento, abrir um livro e se entregar.

Ler (lat legere) vtd 1 Conhecer, interpretar por meio da leitura 2 Conhecer as letras do alfabeto e saber juntá-las em palavras 3 Pronunciar ou recitar em voz alta o que está escrito 4 Estudar, vendo o que está escrito 5 Decifrar ou interpretar bem o sentido 6 Decifrar, perceber, reconhecer 7 Inquirir, perscrutar. (fonte: Michaelis)


domingo, 26 de agosto de 2012

Ponto com vista

     

     Aquela paisagem nunca havia feito sentido pra ela. Apoiava os braços sobre o parapeito da janela e segurava o rosto, virado para o lado direito, com cara de ressaca. A maquiagem da noite anterior ainda estava grudada nos olhos pouco abertos e a roupa do ontem cheirava a cigarro. Qual a graça em observar um cemitério? O sol daquela manhã que mal havia começado não a atingia diretamente, mas era suficiente para obrigá-la a apertar os olhos enquanto buscava algum sentido para aquela nuvem de pensamentos novos dentro de sua cabeça.
     Não sabia por qual motivo havia começado a reparar mais no cemitério, só sabia que era muito estranho ter o quarto de frente para lá. Todos os dias, levantava-se da cama sempre cambaleando, e dava um “bom dia” baixinho aos mortos. Antes de começar a pensar sobre isso, fazia como um deboche. Hoje fez em sinal de respeito. Nunca havia conhecido alguém que tivesse ou gostaria de ter um quarto de frente para um cemitério. Na verdade, nunca havia perguntando. Achava que as pessoas podiam se ofender ou taxá-la de feiticeira, bruxa e outras criaturas mágicas do tipo.
     Mas naquela manhã sentiu que acordou diferente. O frio na barriga havia aparecido depois de tanto tempo sem função no corpo dela. Sentia-se como se perdesse algo que nunca havia tido, mas que um dia teria. Não sabia se ficava feliz ou triste, não sabia como sistematizar, mas sabia que de alguma forma já estava sistematizado, com e sem interferência dela.
     Desceu o olhar para a direita e viu um amontoado de casas na continuação da sua rua. Do outro lado a mesma coisa, só que com menos casas. Desceu o olhar e viu a rua sem ninguém. Ameaçou um riso. Devia ser a única acordada àquela hora da manhã daquele dia. Nem ligou.  
     Lembrou-se do início de novembro, no Dia dos Mortos, em que o “bom dia” foi especial. Naquele dia o cemitério estava lotado. Ao longe, via pontinhos pretos caminhando por entre os túmulos como formigas perdidas no pote de açúcar. Até a área superior do cemitério, onde não havia muitos túmulos, estava ocupada. Imaginava as pessoas envoltas nos seus choros e velas com gosto de cadáveres e cheiro de flores recém-colhidas.
     Mas hoje não havia ninguém lá; e olhando devia ser só ela. Lembrou-se da harmonia da última música da noite anterior, lembrou que ia perder algo que não sabia ainda.
     Precisava logo entender a sensação que dominava o corpo todo e arrepiava seu tecido. Não sabia onde mais esconder-se de si mesma. A verdade a queimava junto com os raios solares, ainda intensos. Precisava fazer alguma coisa.  
     Saiu da janela e de casa correndo do jeito que ainda estava vestida. No desespero da busca pelo encontro desencontrado, corria a maior parte do tempo, minimizando os pensamentos confusos com a ofegante jornada até seu destino. Até o cemitério.


Primeira parte de um conto que pode ou não ter continuação, escrito em dezembro de 2010, com título de outubro de 2010, originalmente postado no meu antigo blog, o Rua das Ilusões.

domingo, 12 de agosto de 2012

Era uma alguém


Era uma vez uma menina que não dormia. Ela achava que vivia. De vez em quando, até existia, quando não encontrava com a morte naquele dia. Ela falava alemão, catalão e solidão. Ela não gostava de parágrafo-travessão. Ela não ligava pra ninguém. Enquanto isso jogava pedras nas janelas. Ela não ligava se eles não ligavam. Ela desligava. Pausava a mente pra todas aquelas mentiras. Fechava os olhos, estacionava o pensamento. Nada a atingia. Nem a mais agonizante vontade de chorar. Ela era uma mistura complexa de elementos históricos derivados de épocas tão remotas quanto o local até onde sua mente fantástica atingia. Ainda assim, ela permanecia constantemente no lugar de esperar. Esperar qualquer coisa. Desligada, esperava. Esperava que seus problemas se resolvessem se jogasse algumas colheres de açúcar na boca e mastigasse os pequenos grãos, imaginando que fossem as pessoas que ela mais odiava, obrigando-as a se tornarem doces. Ela era tolerante, ela via o lado bom. Cega pra tudo aquilo que a incomodava. Tão estupidamente banal e boçal. Tão ridiculamente crédula. Dava nomes às suas preocupações, socos na parede e pontapés nas portas. Suportava a existência inexistindo para si mesma. O príncipe encantado já havia morrido. E todos que haviam prometido ficar se foram. Todos que ficaram permaneceram por outros motivos. Nunca foi pra ela, nunca era por ela. Era “ela por ela” e só. Esperava conseguir um lugar pra acabar com a única coisa que ainda não tinha visto ainda: a vontade de viver. Observava. A única coisa que tinha vontade de manter na cabeça, era a frase com a qual tinha sonhado numa das poucas noites em que o sono fora visitá-la, depois de muito tempo sumido: “A vida agora é muitíssimo tolerante”. Quando esse agora chegaria? Ela se mantinha permanentemente em fases tristes, as quais todo mundo tem quando tudo está na mais perfeita paz e sintonia. Sabe-se lá porque ela sempre achava que faltava alguma coisa quando a harmonia reinava. Ela se sentia rejeitada, evitada, amada, ironizada, admirada e julgada, variando o verbo de acordo com a pessoa. O que, de fato, pensavam dela? Pensavam que ela pensava demais. Diziam que ela dizia de menos. Comentavam que ela não comentava, só consentia. Pedia doses extras dramáticas no bar mais próximo. Pintava as esperanças na porta antes de entrar. Saía com as mãos sujas de tinta e a boca inundada de sangue. Via o resto do que nem vinha. Vivia do resto que não existia. E, bêbada, dizia: “É só isso mesmo assim... Perder a vida agora é crime... É meu? Sou eu? Fui eu?”. A cabeça dela pesava, a boca tremia, os olhos ficavam inquietos, a raiva por si mesma tomava conta do seu corpo inteiro e as unhas, que antes arranhavam as outras pessoas, refletiam agora machucados feitos por ela mesma em seu próprio corpo. Fugia da própria sombra. Corria de espelhos, reflexos e reflexões.  Subia montanhas sem saber por quê. Quando via, já estava no topo, olhando em direção a todos os lugares aos quais não pertencia, pensando num lar, pensando em voltar. Mas pra onde? Com quem? Por quê? Era uma vez uma menina que não dormia. E ela não viveu feliz para sempre.

"Crowd: [chanting] Deh-Shay, Deh-Shay, Bah Sah Rah. Bah Sah Rah. / Bruce Wayne: What does that mean? / Prisoner: 'Rise'." (The Dark Knight Rises)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As fases


Coisas tais

Ela: Vai dançar comigo?
Ele: Mas eu não iria conseguir me conter. Iria dar problema...
Ela: Não me diga uma coisa dessas...
Ele: Você não está podendo me exigir nada não.
Ela: Vai que minhas exigências são boas?
Ele: Suas exigências, promessas, certezas...Vou esperar é deitado.
Ela: Doeu...
Ele: Não, pára. Só disse que não vou ficar contando com algo. Chegar na festa e ver você dançando com... Não iria ser bom. Por isso não quero contar com nada disso.
Ela: Quem sou eu pra pedir alguma coisa...
Ele: Você pode pedir qualquer coisa, mas a vida já me ensinou bastante coisa.
Ela: Posso pedir uma coisa então? Desculpa qualquer coisa.
Ele: Por que? Gosto muito de tudo isso.
Ela: Eu também...
Ele: Então vamos é ser feliz. Deixa a vida nos levar.
Ela: "Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu..."
Ele: Você ainda vai dar ótimas risadas. Mas não é uma coisa fácil. Às vezes, o calo dói.
Ela: Como você disse...
Ele: Vamos escrever um manual juntos? 1º: Eu me amo mais que qualquer pessoa.
Ela: 2º: Eu sou muito feliz.
Ele: Ótimo.
Ela: Dá pra sintetizar: eu me amo e me sinto feliz.
Ele: Deve ser por isso que, de alguma forma, nós nos amamos e somos felizes.
Ela: Fiquei sem o que dizer...
Ele: Ah, se fosse mais de perto... 


No corredor
 
Ela: Acho que faço mal em lhe dizer essas coisas...
Ele: Que mal há em procurar a felicidade? 


O café
 
Ele: Tentei te dar espaço, ar livre, não te sufocar…Mas você transborda tudo.
Ela: Tenho medo de você queimar a boca ou pagar a língua.
Ele: Não me importa que o gosto fique amargo. Só me importa o gosto.


Na rede
 
Ela: Eu estava com saudade.
Ele: Eu também, mas tinha medo.
Ela: Não sei porquê medo.
Ele: Não sei se você compreenderia o medo.
Ela: Eu te amo, mesmo com as interrupções.
Ele: Eu te amo. Sem interrupções. 


No celular

Ele: Alô? 
Ela: Oi! Você já foi embora?
Ele: Ah... Quase! Tô na rodoviária esperando o ônibus chegar...
Ela: Nem deu pra gente se ver direito hoje à tarde...
Ele: Nem me fala. Mas pelo menos vi seu rostinho, ainda que por cinco minutos.
Ela: E agora você vai demorar séculos pra voltar aqui...
Ele: Não pense assim. Minha saudade é do tamanho da sua.
Ela: Infinita?
Ele: Infinita e eterna, assim como você é pra mim.


Final de conversa

Ele: Um beijo, você sabe onde.
Ela: Outro beijo, nesse lugar também. 


"Ela lhe contou histórias, ele a ensinou a voar. Amavam-se, mas ele não queria crescer."

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Falta momentânea de segmento frasal

Meia-noite. Sem sono. Vestido verde.
Ruídos. Goiabada com queijo. Sede.
Fichário. Ventilador. Lua.
Iracema. Estrelas. Rua.
Café. Revisões. Leituras.
Calendários. Trabalhos. Mesuras.
Telefone. Fotos. Sorte.
Folhas. Tesoura. Recorte.
Fitas de vídeo. Cartas. Caneca.
Flores. Livros. Boneca.
Descalça. Xadrez. Pensamento.
Janela aberta. Música. Deslocamento.
Silêncio. Sozinha. Clichê.
Meia-volta. Sonhos. Você.

Minha primeira falta momentânea de segmento frasal, escrita e postada em 27 de fevereiro de 2009. Originalmente postado no Rua das Ilusões, meu antigo blog.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

11 de fevereiro



Passa das 3 horas da manhã e eu ainda não consigo dormir. Depois que desligamos o telefone, com aquela voz de quem “morreu e não gostou" juro que quis te ligar de novo. Acho que não ter te ligado fez com que o sono despedaçasse a cada minuto em que eu me arrependia.

Não tinha nada pra fazer, nem me distrair com idiotices. Mas devido aos acontecimentos do dia, resolvi assistir àquele seriado que eu achava sem graça, última coisa que eu podia fazer hoje. Vi e ri. Ri tanto que me surpreendi. Quis resgatar o humor que você diz que me falta e até acho que “fui feliz” nisso.

Mas ainda não dormi. Lembrei que tinha passado algumas pastas de fotos para o laptop. Fui ver. Fui ver e comecei a chorar muito. De felicidade, a mais absurda felicidade que uma culpada pode ter. Culpada por sempre, depois de um dia maravilhoso, conseguir estragá-lo em cinco minutos.

Eu realmente acho que não sei conversar com você às vezes, sempre parecendo que nunca escuto nada do que você diz. Mas eu escuto! Escuto tanto que perco a fala. E admiro tanto que perco a coragem. Eu sou mesmo uma pessoa ingrata, egoísta e nervosa. Eu não gosto disso e estou tentando, mesmo que às vezes não pareça, mudar minha triste realidade comportamental. Sempre faço com que você fique chateado todos os dias. E no dia em que você teve um pesadelo comigo, eu fiz exatamente o que eu faço de melhor: estressar-me com algo inútil e tirar o foco do real problema.

“Desculpa” é a pior palavra do mundo. Se a gente sabe que vai dizê-la depois – porque, sim, nós sabemos – por que não sabemos que não devemos fazer o que causará isso?

Será que escrever sobre melhora o que eu sinto? São problemas inventados por uma mente fútil e fraca, que nunca soube buscar forças totalmente. Hoje vi que não dava mais. Afundando nosso relacionamento no mar das discussões desnecessárias providas de uma “desatitude”.

Desatitude... Isso existe? Se não, acabo de descobrir o que me define, sem nenhum orgulho disso. Tenho apontado todos os seus defeitos sem antes corrigir os meus. Tenho causado desafetos desnecessários. Tenho sido, enfim, uma péssima pessoa.

Eu só peço que não desista de mim ainda. Você deve se cansar disso todos os dias e está sempre sorrindo. Eu me encho de vida com você e, mesmo assim, pareço apática. Eu quero sentir que sou tudo aquilo que você me declarou na cama hoje. Eu quero ser sua mulher furacão.  Só não vou mais destruir nossos telhados, prometo. Mesmo assim, terão dias que irei errar. E quando eu errar, quero que me segure, sacuda e, em seguida, me abrace forte. Seu abraço é meu mundo completo.

No estágio final do meu autocontrole, você não precisará fazer nada, porque estarei te amando em um nível que só o nosso amor é capaz de aguentar.

sábado, 19 de maio de 2012

O sequestrador de afetos



E se um dia sem nada você acordasse?
No chão o corpo sem cama
A pele sem roupa, um arrepio
Encostando no canto do quarto
O rosto limpo no ladrilho frio?

Você já não tem mais quarto. Percebe que não tem mais casa. Está jogada sob um chão e os ladrilhos já não são mais fartos. Ainda deitada, você tenta ver, mas sua vista começa a embaçar. E de tonturas tantas, um borrão alastra-se por dentro dos seus olhos, cegando-a sem pobres esperanças. O desespero maior se torna, obrigando-a a passar a mão pelo crânio. Nota uma superfície calva, sem um fio apenas, por onde sua mão desliza. Tenta, por fim, os dedos no rosto sentir, mas insensível demais já está. Sua alma julgou-se imortal, matou seu próprio corpo, provando para si que, de verdade, nunca existiu.

A inexistência sente saudade
Na carne de um ser invertebrado
E o desejo de reexistir um dia
Já morre sem pele, despedaçado

"Her lie reflected my lie. And suddenly, I felt nothing. I couldn't cry, so once again, I couldn't sleep."

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vermelho sangue



       Passava da meia-noite. A madrugada entranhava pelos seus poros como nunca havia sentido.
     Sentada na poltrona rasgada que ficava em frente à janela da sala, o vento a fazia imaginar coisas que ninguém entenderia. O segundo andar daquela espelunca nunca fora tão útil em termos de apreciação de paisagem. Passou um, passaram três, sete carros na rua. Decorou suas cores e gravou em pensamento o que passou em alta velocidade. Desejou ser como ele.
       Continuou mais dez minutos cravados sentada na velha poltrona. O vinho que abrira já estava pela metade; e a taça, com um mínimo quebradinho na borda, vazia. Encheu-a até a boca desprezando qualquer tipo de educação psicológica...Ninguém a estava vendo mesmo. Virou como água, desceu como vodca. Levantou, chutou as pantufas mofadas pelo ambiente do apartamento e direcionou-se até seu quarto. Vestiu um sobretudo preto por cima do pijama vermelho curto que vestia. Calçou uma bota também preta, de rodeios passados. Fez qualquer coisa na cara com um toco de lápis de olho e um resto de batom vermelho que restava na penteadeira infestada de cupins. Amarrou o cabelo para cima e saiu, deixando para trás a poltrona, a garrafa e a taça. Desceu a escada que rangia, tentando em vão pisar de leve.
       Chegou, finalmente, à porta do prédio, que tinha os vidros quebrados. Saiu andando devagar pela rua iluminada pelos postes. Não pronunciava palavra alguma desde que o relógio dera doze badaladas. Caminhava sentindo que havia feito péssima escolha da bota, que já apertava os pés. Ignorava a necessidade de ficar descalça. Ignorava o banho que não havia tomado. Ignorava-se.
       Andou por toda a rua que conhecia e, chegando à esquina, hesitou em continuar. Nunca havia parado. Nunca tinha medo. Mas essa madrugada a arrepiava tanto que teve o medo acumulado das noites que não teve. Um medo de não parar de sentir o que sentia, nem se amanhecesse. Depois parou e sentou, uns dois metros antes de chegar à esquina. Pela primeira vez, em anos, teve que parar pelo medo. Parou e teve medo. Parada, teve medo. Abaixou a cabeça, sentada embaixo de um poste. Viu pingar gotas vermelhas de seu rosto.
       Por segundos apenas observou, depois foi procurar de onde vinham. Era de seu lábio inferior. Lembrou-se da maldita taça quebrada, colocando a mão na ferida, tentando estancar o sangue. Limpava com a gola do sobretudo. Fazia tudo sem falar. Nada. Ninguém. Só ela e as luzes da madrugada. Contou até dez, cinqüenta, cem. No noventa e nove olhou para o lado da esquina. Esperava ver uma sombra qualquer, pelo menos para se sentir ameaçada ou acompanhada. Nem isso havia. Estava sozinha.
       Olhou para os pés doloridos, a boca sangrando e o nariz escorrendo. Ficou sentada a dois metros da esquina, e a milhas da felicidade. Sozinha.

Conto escrito ao meio-dia do dia 23 de maior de 2010. Originalmente postado no Rua das Ilusões, meu antigo blog.

domingo, 25 de março de 2012

Esquece


Esquece esse medo bobo de conspiração contrária do universo.
Esquece o que o mundo e o senso comum pensam sobre você.
Esquece daqueles que ainda povoam sua mente trazendo o pior do seu ser.

Esquece da hora.
Esquece e demora.
Esquece porque a vida foi feita pra quem sabe reinventar.

Esquece que o mundo é uma merda.
Esquece porque eu tenho pressa.
Esquece do mundo que esquece da gente sem pestanejar.

Esquece de tudo.
Esquece de nada.
Esquece todo mundo que insiste em te achar imaturo demais.

Esquece quem acha que sabe de tudo.
Esquece quem acha que engana você.
Esquece se todos pensam que você não sabe de nada.

Esquece do tempo.
Esquece o momento.
Esquece das fórmulas chatas de Física pra decorar.
Esquece de tudo que te faz parar.

Esquece de tudo que fez até hoje.
Esquece de tudo e começa de novo.
Esquece que existe alguém pra te odiar.

Esquece a ferida deixada no peito.
Esquece da dor já chorada demais.
Esquece das lágrimas nas noites de inverno.
Esquece que existem pessoas perfeitas.
Esquece porque todos vão te decepcionar.

Esquece daqueles que já não lembram de você.
Esquece porque no final é a gente quem sofre.
Esquece dos anos passados.
Esquece o tempo perdido.
Esquece o passado vivido de um ser querido.

Esquece o que te incomoda.
Esquece de tudo que implora.
Esquece de tudo de uma vez por todas pra continuar.
Esquece de tudo que te faz chorar.

Esquece essas coisas e mais muitas outras.
Esquece de mim.
Esquece de você.
Esquece pra poder lembrar.
Esquece pra se transformar.

Adaptação em verso (sempre quis mudar esse texto) de "Esquece", texto originalmente postado no blog Depois dos Quinze em julho de 2011. Lembrado pela Carol e pela Jerssika essa semana no meu facebook.

domingo, 11 de março de 2012

Saudade demais, domingos reais


Domingo à noite. Os últimos pingos de chuva caindo na janela. Um sentimento em comum: saudade. Daquilo que vem, daquilo que vai. Daquilo que vem do que vai. Estamos fadados a isso e, ainda assim, sorrindo. A saudade dói, mas se pararmos para pensar, anestesia. Porque senti-la nos obriga a buscar as lembranças de pessoas que nos fizeram felizes. E por mais que fira, cura. O sentimento mais presente nas poesias e canções. É obrigatória no amor. Tentamos matá-la, mesmo que temporariamente, longe ou perto de quem sentimos saudade. Relemos cartas, revemos fotos, reviramos a memória. Fechamos os olhos e, ao mesmo tempo, abrimos um sorriso sem mostrar os dentes, o que condena estarmos sentindo a desesperada necessidade de puxar aquela pessoa do nosso pensamento para junto de nós. Além de tudo isso, é um sentimento completamente próprio da língua portuguesa. Os ingleses sentem falta. Nós sentimos saudade. E existe uma grande diferença (mesmo que paradoxalmente possa ser uma linha tênue, em determinados casos) entre “I miss you” e “eu sinto saudade”. Saudade é medo, amor, distância, ontem, a música que você ouviu hoje, o beijo que você não deu, o amor que você recusou, o momento que você desperdiçou, a mão que você pegou, a ajuda que deu, o jardim que regou, o texto que você acabou de ler, a pessoa de quem você acabou de lembrar, a cama desarrumada em um domingo chuvoso à noite. Tipo agora.

Texto originalmente postado no blog Depois dos Quinze em julho de 2010 que parece retomar o sentido neste específico domingo em março de 2012.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Infinitoquê?

"Um dia a coisa sai. E eu acredito no mecanismo do infinito, fazendo com que tudo aconteça na hora exata." (Caio Fernando Abreu)
 
 

Eu não sei começar. Nunca aprendi. Talvez seja por essa razão que eu adore pensar sobre o começo de tudo, principalmente daquilo em que não tenho o direito de julgar. Tanto não sei como começar que já inicio minha escrita com um paradoxo aparentemente simples, porém nada comparado ao que seria descrever meu sentir em relação aos inícios.

Agradeço que não tenha tido que começar a vida por mim, sabe-se lá quanto tempo demoraria até eu conseguir sair do útero. Ou que tivesse que tomar as primeiras decisões da vida sozinha. Eu com certeza seria uma mulher literalmente e literariamente ao contrário da que vos fala. Poderia ser melhor? Talvez. Eu poderia saber fazer começos e não ter a menor ideia de como são os fins. Não que eu saiba algo sobre fins hoje. Sei que, pelo menos, os fins são engolidos porque são, definitivamente, definitivos. As pessoas podem não concordar com os fins, mas de algum jeito terão de aprender a aceitar ou simplesmente lidar com ele. Só o que podemos fazer é repassá-lo à frente com as mais diversas ficções adicionadas à pompa do game over.

O estranho é que, apesar de o conceito do começo ser praticamente como o do fim em teoria, principalmente no quesito de que ambos os fatos não podem ser mudados, continuamos a insistir em querer, sempre, mudar os começos. Quiçá eu, que realmente sou péssima neles. Se não tivesse conhecido fulano no início, se ele não tivesse saído de carro aquela noite, se nós não tivéssemos insistido com eles...O velho e sempre novo “se”. Se, se, se, se! Se eu tivesse começado esse blog antes, será que alguém já estaria entendendo melhor o que eu realmente quero passar através da tela? 

Tanto falei que não gosto, não sei e não entendo começos que fiz um dos maiores começos da minha vida, aqui neste texto, sem querer, para um só propósito: finalmente COMEÇAR esse blog. Confuso? Eu também. O que posso adiantar é que, feliz ou infelizmente, este blog está começando. E como a boa não-sei-começar que sou, começo da pior-melhor forma possível: apenas dando início, o que não significa que será realmente bom.

A verdade é que eu estava tão preocupada em começar que parece que já estou no meio. Não sei explicar, é um sentimento tão confuso quanto aceitar o fim, mas parece promissor. Fiquei tão preocupada com o começo que agora nem quero mudá-lo. E olha que é meu próprio começo, eu tenho todo o direito de mudá-lo enquanto ainda há tempo. Mas continuar essa reflexão é para outra hora.

Também não garanto que esse será o único começo do meio, pode ser que ainda venham vários começos começando a explicar. Retorno diretamente da verdadeira época de ouro dos blogs, a qual vivi entre 2004 e 2008, quando o mundo blogueiro ainda era pura consciência crítica. Não que eu não goste do que tenham feito com os blogs hoje em dia, até curto todo esse cuidado em parecerem sempre perfeitos, mas não é o que você encontrará aqui.

Eu gosto de escrever contos, eu gosto de inventar coisas, eu quero meu nome num planeta, quero voar, quero encontrar com a Alice no País das Maravilhas, eu amo inventar diálogos, amo mais ainda misturar acontecimentos reais sobre a minha vida com coisas inventadas que poderiam ter acontecido, quero ir pra Oz, pra Terra do Nunca, plantar sonhos no Jardim Secreto, eu quero poder ter um lugar para todas as coisas fantásticas, infinitas, pura utopia!

Daí não restava a menor dúvida quanto ao nome do lugar que daria sequência à minha Rua das Ilusões: INFINITOPIA! Um neologismo inventado por mim, mistura do infinito que eu tanto vivo com a utopia de viver assim. Portanto, sem mais delongas, bem-vindo à infinita utopia de um lugar que não existe!