sábado, 19 de agosto de 2017

Chamado para a Era de Aquário

Salvador DALI
Aquarius, from Twelve Signs of the Zodiac, 1967
A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus,
mas aos outros se lhes fala em parábolas,
para que vendo, não vejam;
e ouvindo, não entendam.
(Lucas 8:10)

Me chame prum vinho. Vamos discutir a complexidade das relações afetivas atuais do mundo. A quebra dos paradigmas, o não binarismo, a crise da metafísica.

Sejamos como os corvos, façamos planos, fiquemos empolgados com eles, olhemos para o futuro. Me pergunte o que eu acho das pessoas que não conseguem sentir nada. Me pergunte se eu acho que elas compensam os nossos excessos.

Prometa só uma coisa: não me leve pra casa até que eu fique bêbada. Ligue pra minha amiga. Fale com ela que eu vou mandar o seu nome e a localização da sua casa pelo aplicativo de mensagens. Fale que está tudo bem, que eu estou bêbada.

Vem. Vamos discutir a diferença entre ontologia, epistemologia, fenomenologia. O que é que pode dar errado? Me desafie. Faça com que eu te ache o ser mais inteligente dessa dimensão do universo na qual nos beijamos pela primeira vez. Saiba que, em outro-verso, eu teria morrido atravessando a rua quando voltávamos daquele bar.

Me acaricie com seus dedos, me atinja com seu antebraço, me segure com seu bíceps, me apoie nos seus ombros. Masque um chiclete de hortelã enquanto estuda meu corpo hoje e masque um chiclete desse mesmo sabor amanhã quando for me tocar de novo para que te ajudar a lembrar de mim.

Tome banhos comigo. Oscile na temperatura como o chuveiro da minha suíte. Água fria aumenta o estado de alerta, água quente reduz a tensão corporal. Reforce a ideia de que você fala tanto sobre banalidades quanto sobre a origem da vida. Porque você fala. Você é ouro e eu sempre vou repetir: não se queime para manter as outras pessoas aquecidas, como dizia aquele haicu sobre amor próprio.

Não me venha com small talk. Eu odeio small talk, mas também só fale de galáxias distantes, da morte, das suas inseguranças e das mentiras que você contou se tudo isso for sincero. Não precisa nem ser real, mas precisa ser sincero. Compre aquele cinzeiro com led que a gente viu na vitrine da tabacaria. Façamos a feira juntos. Anote os ingredientes que eu uso na minha panqueca pré-treino. Quando você voltar, eu te ofereço minhas esperanças, minha criatividade, meu passado, meu corpo, meu tempo e minha energia.

Vênus em gêmeos sextil urano traz a leveza com a qual podemos aprender a nos relacionar de maneira a sairmos dos estereótipos perigosos do amor platônico e romântico. Lembre-se de que você pode doar sem amar, mas não pode amar sem doar. Eu li num texto em uma das redes sociais que somos cactos espinhosos e que é preciso continuar regando até florescer. Eu também não acreditava antes, mas até cactos têm flores; até cactos precisam de água.

Entenda que alguém vai chegar paciente, with ease, devagar. Saiba que essa pessoa não irá curar seus traumas, mas compreenderá e fará de tudo para que eles não se manifestem mais com tanta frequência. Os pesadelos ficarão no cinzeiro: eu vou tossir metade do meu pulmão que está tomado pela espera de gritar seu nome.

Ressoe a ideia que todos os problemas eventualmente queimam e tornam-se nada mais do que cinzas que podemos soprar no ar.

Física. Poesia. Rigor. Magia.


When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
This is the dawning of the Age of Aquarius

terça-feira, 13 de junho de 2017

Agorafobia

 

 Gotta let my mind find another space.
So if you're gonna hurt me
Why don't you hurt me a little bit more?
["Hurt Me" - Låpsley]


Alguém mais se sente culpado quando eles ficam dentro de casa o dia todo? Eu me sinto um lixo agora porque eu deveria estar na rua com meus amigos ou tentando arrumar um emprego. I just can’t now. Eu tenho medo de ir lá fora, agora. Na maior parte dos dias eu consigo sair de casa mesmo que eu me sinta muito ansiosa sobre isso. But I just can’t today. Entretanto, agora que vejo que passei o dia inteiro dentro da casa, eu me sinto mal, eu me sinto mal como se eu tivesse desperdiçado meu dia. Eu deveria estar fazendo algo produtivo.

Sim. Eu me sinto limitante quando eu escrevo alguma coisa, porque pode parecer que eu sou preguiçosa e não estou trabalhando. Agora, meu marido deficiente físico tem que fazer viagens ao mercadinho sozinho porque eu não posso. I just can’t get out. E eu me sinto culpada e inútil.

Três da manhã e estou acordada. O gato decidiu trazer seus brinquedos para cima da minha cama para que eu possa brincar com ele. São pompons e ele adora procurar por eles. Eu jogo um no corredor. Quando ele traz de volta está encharcado. Eu acho que ele parou perto do pote de água e bebeu e colocou o pompom na água. Então, agora, eu tenho um pompom úmido em cima da minha cama. Gato maluco.

Agoraphobia by Ellia
 
Eu me sinto über culpada o tempo todo. Meus filhos querem ir cá e lá e em todo lugar e eu fico... Ah, não, está fechado hoje... Eu tento really hard sair com eles porque eu sei que é foda ficar trancado em casa, ainda mais num apartamento dois quartos de fundos. Eles literalmente correm em círculos e se batem contra a parede até que eu, ah, beleza, vamos. Infelizmente, agora, está super quente lá fora, então fica mega difícil ir até o parque.

Não. Minha família faz eu me sentir assim. E eu não sinto que desperdicei o meu dia porque é normal pra mim estar on e off por dez anos. Mas, mesmo que isso, agora, soe contraditório, eu realmente acho, às vezes, quem dera eu pudesse sair como as pessoas normais. Isso não é viver. 

Bem, eu finalmente desisti e fiz a ligação para o CVV. Medicamentos e terapia não têm ajudado e o tempo está running out, o dinheiro e a paciência, também. Eu não trabalho há mais de um ano e eu tenho um bebê para cuidar sozinha. Alguém tem algum conselho? Eu estou surtando porque eu conheço pessoas que ligaram para lá inúmeras vezes. Eu tive sorte. Eles perguntam: como vai você? Mas eu não posso estar lá fisicamente. E eu não sei se isso é bom ou ruim.


 

domingo, 4 de junho de 2017

Gente que não


Faz três ou quatro meses que tento parar de fumar. Só me aproximo do cigarro através da fumaça de tragadas alheias enquanto ando pela rua. Sem hesitar, sigo-as como um desenho animado. O envolvimento pela fumaça em formato de braço que vai flutuando até a torta de maçã esfriando na janela do vizinho.

- Vai ser como aquela música, quer ver?
- Que fala de garotos bonitos que não me ensinaram coisas que eu não conhecia?
- Sim. Das garotas bonitas que sempre ficam pra trás e precisam ser sensuais.
- Vai. Pode dizer. Eu não dou a mínima.

Oportunismo. Apaixono-me facilmente. Parece tão fácil lá de baixo, tão calmo. Não é a mesma sensação que tenho ao acordar: levanto-me, olho pela janela, acendo um. A mensagem pisca na tela do celular.

- Você vai à festa hoje? Vi seu nome na lista de interessados.
- Sim, quero ir, mas não tenho companhia.
- Olha minha situação atual.

Recebo uma foto dele deitado, talvez nu, por baixo das cobertas. Digo para ele sair dali. Ele diz que está muito desanimado. Eu caio, como sempre, em sua armadilha: sou eu quem, agora, o chama.

- Mas quem vai contigo? Vamos nós dois?
- Não. Vou com ele. A gente se encontra lá.
- Eu acho que podemos beber em algum lugar antes.

Nos encontramos na casa dele. Os pais dele estão dormindo e, nós, silenciosos, damos fim às meias garrafas de várias bebidas que estragavam na geladeira. Confere: celular, carteira, chave. Os três cês essenciais de alguém que sai à procura de outrém para levar pra casa na volta.

- Estou aqui com pessoas que nunca vi na minha vida.
- Viemos para essa festa juntos.
- Posso fumar aqui com vocês?
- Fique à vontade.
- E vocês três são o que? Vocês se pegam entre si?
- É. Algum problema com isso?
- Nenhum. Imagina. Que isso. Não. Acho legal. Você pega mulher também?
- Depende.

Dançamos e você abraça sua ex. Ela está me irritando muitíssimo agora. Imagino-me com um martelo e alguns pregos, fixando minha cabeça em você, em algum lugar, para que você nunca mais ouse abraçar alguém na minha presença. Eu olho e você beija a testa dela. Não a beije na testa, eu imploro, é o único lugar que você não deve beijar alguém. É estupidez.

- Será que ela entendeu que é brincadeira?
- Ela ainda acredita que meu nome é aquele que eu falei.
- E você lembra qual você falou?
- Sim, ela gritou da janela, olhou na minha direção, não tive como não dizer.

Outro peso: uma foto de uma noite com eles. Essas plataformas tecnológicas de filtros e histórias diárias não servem para nos mostrar a vida como ela é, mas para falsificar qualquer aspecto de vida que se torne presença. Eles devem ter chegado às seis. Aquela padaria tem o melhor café do centro da cidade, me disse uma vez uma colega. Eu acreditei.

- Eu ainda não fiquei com mulher. Estou na fase de sentir atração, mas insegura.
- Eu te entendo. Já tive essa fase também. Fiquei com três mulheres até hoje.
- Você ficou só de beijo?
- Sim.
- Mas é uma sensação boa beijar uma mulher?
- Sim. Uma amiga minha diz que é macio. Eu concordo.
- Acho que eu não namoraria uma mulher.
- Eu entendo.
- E como vocês se conheceram?

O vinho nem ficou pela metade ainda e ele já está bêbado. Será que algum dia ele vai chegar aqui sem estar bêbado? Ele diz que vai, ele sempre diz que tenta, mas a vontade é maior do que ele. Ele sabe que eu estou conectada demais a ele para me preocupar com isso. Ele me responde às cinco da manhã que acordou morto. Você me desculpa, não vai rolar. Eu desculpo sim. Eu desculpo sempre.

- Eu vou me machucar.
- Você quer que eu seja uma coisa que eu realmente não sou.
- Eu posso ir pra sua casa hoje?
- Tem sempre algo que eu estou pensando. Sabe o que é?

Não pede desculpa por isso, ele diz, mas me responde na grosseria. Claro que não, filha. Você tá bem? Eu digo de boa. Ele diz indo. Claro que não, filho. Você nunca pode conversar e eu não entendo porque você necessita tanto da minha atenção. Você não me quer. Você só quer que eu não supere você. Não é você que está vindo para minha casa esta noite.

- Quando as luzes apagarem, você estará lá?
- Quando eu te deitar na minha cama, dizendo o que é certo e errado?
- Todo é autocontrole é muito emocional.
- É. Muito emocional.
- Tivemos algo que nunca aconteceu.
- É. Todo mundo tem uma história assim.
- Por que você faz questão de ser a minha?

Ele bem me quer mal. Ela mal me quer bem. Sem homens triviais. Sem mulheres triviais. Sem meninos triviais. Sem meninas triviais. Terra de ninguém. Havia flores, velas, amor e aromas gastronômicos aromáticos culposos. Ele deve me odiar agora. Quero quebrar meu espelho em pedacinhos com um soco, catar os cacos e abraçá-los. Quero sentir metade da dor que causei. Eu não vou dizer, eu não vou falar. Nós sempre achamos um jeito. Sem pessoas triviais. Sou ordinária. Sem um mundo trivial. Extraordinária.

Você topa o pão de batata velho desejando o câncer do corpo, eu, tudo aquilo que eventualmente pode se ter mas que não prometia absolutamente nada. Talvez eles se amem mesmo! A única coisa que te peço. Por favor, me prometa: guarde certas coisas no que resta além de nós.

terça-feira, 30 de maio de 2017

MCMXCIV


Minha mãe sempre disse que a vida era como uma caixa de chocolates. Como pode uma mãe trabalhadora com três filhos comprar Nikes e Reeboks que custam cento e vinte dólares cada? Era um ano comum que começou no sábado; e a terça de Carnaval em quinze de fevereiro: o ano do cão, na China, dia onze; um mês que nunca tem a mesma quantidade de dias.
As crianças roubam esses tênis. Às vezes, matam por eles. Como a caixa de chocolates: nunca sabemos o que vamos pegar. Uma laranja em cima da mesa, chinelos na porta de entrada. Você passa pelo corredor aberto e ao longe vê o quarto, à esquerda; banheiro, à frente; outro quarto, à frente, à direita. Chegamos.
Vinho Travessia, pela metade. Safra dois mil e quinze, Chile. Será que veio mesmo de lá? Será que você vem? Tenho te esperado desde as nove. Essa sua safra é excelente, dizem. Você diz que está jantando. Seu pai, na cidade, burguês. Eu tomei cachaça, jantei. O restaurante é chique, nunca fui lá, mas também tomaria cachaça e jantaria e deixaria alguém me esperando, por mais que não quisesse. Estão pagando pra mim.
Podemos ir? Só mais quinze minutos. Ah, talvez eu não tenha dito a vocês o quanto nossa família é feliz. Veja. Já conversei com todos. Todos irão concordar com vocês. Eles estão felizes? Claro que sim. Há cachaça e jantar. No restaurante chique. Como não estar feliz?
Você se encontrou comigo, e me esperou as horas. Você estava bêbado. Desci a pé de lá. A pé? Jura? Obrigada por me esperar, sério. Você não sabe o quanto é importante pra mim. E nos conhecemos a esse ponto?
A língua e as mãos envelheceram mais rápido, de fato. Não ousaria outra explicação. Uma ansiedade tomava o hipnotismo curioso de arranjos que resistem, ainda, às tentações. Não haveria prazer maior que aquele. O fogo, faísca-eletricidade. Essas coisas. Amenidades que servem de metáfora para aquilo que, sabemos, não há metáfora suficiente. Figuras de linguagem transitam por nós: hipérboles em minha cama, metonímias nas genitálias, símiles de ano de nascimento.
Vejo dois rostos que se misturam em minha frente. Um branco, outro preto. Os dois barbados. Um com olhos de musgo-sangue-suga e outro com olhos amendoados-jabuticabais. Perco-me nessa natureza de olhos que me comem, aqueles mesmos olhos oblíquos, dissimulados. Ninguém traindo ninguém.
Saciados de linguagem, lambem os dedos de leite e de mel, no travesseiro, e as plumas espalham-se na imagem do lençol que está suando, ainda, os gostos teus.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Potencial agressor

olha lá, a moça agredida
mas será que foi mesmo ou será
a roupa? ou talvez ela
merecesse? ou será que mas
quatro anos? e não disse nada
quatro anos deveria ter falado há
sei lá, quatro anos? essa história está meio
mal contada e isso é um absurdo mas
talvez não seja bem assim e pode até ser
que ela gostasse, vai saber o que essas
mulheres têm na cabeça de louca, de bruxa,
de paranoia, tudo vê coisa onde não há


essas mulheres que apontam algozes
essas mulheres que apontam algozes
essas mulheres que apontam algozes

vamos algemá-la, afinal, essas mulheres
os algozes ao lado, li-te-ral-men-te, esmagando
esses algozes ficam nessa de entrar numas

"fica tranquilinha, vai dar tudo certo"
"fica tranquilinha, vai dar tudo certo"
"fica tranquilinha, vai dar tudo certo"

...

haverá, ainda, no mundo
coisas tão simples e tão especiais
o pão de batata velho, a música que está ouvindo agora,
fazer desejos às 11:11, segurar a mão de sua filha.
essas mulheres querendo um pouco mais
tudo aquilo que eventualmente pode e não prometera
absolutamente
nada

domingo, 29 de maio de 2016

Sujeita

eu sou mulher.
um ser que tem consciência
e experiências únicas.
logo,
eu sou SUJEITO:
eu não me oponho
ao ser pensante;
eu penso.
eu NÃO sou OBJETO.
e serei cada vez:
MAIS sujeito,
MENOS objeto.
não me desumanize,
não me coise;
eu não sou coisa pra você:
pegar;
comer;
usar;
apalpar;
chutar;
bater;
valorizar.
eu sou humana.
eu sou você.
e você também é eu.





 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sofisma


 “(...) the poets are only the interpreters of the gods.”
― Socrates

nossa república se desfez
mas que Platão esteja
avisado:
quem disse que o filósofo
e a poeta nunca
dariam certo
não conheceu
a gente antes
da cicuta

Embebida por algumas aulas de Questões Filosóficas Aplicadas à Educação na faculdade, hoje, às 16h. Depois de alguns (poucos) anos estudando filosofia, entendo que ainda falta mais (tempo) do que supus.

domingo, 26 de abril de 2015

Opacidade

"Quando a luz é emitida de uma determinada fonte, ela passa a se propagar com uma velocidade de 3.105 km/s, isso para o vácuo, ou seja, na ausência de matéria. No entanto, a luz também pode se propagar em outros meios além do vácuo..."

com Anelise Freitas



sentada no ônibus
no calor das três da tarde
eu pergunto
de que lado tá o sol

e num dia de inverno
o mormaço quase sumo
me convida
e pergunto
de que lado tá o sol

sou corpo opaco
e tens-lúcido a
certeza de que se
fosse eu negro
ideal
'inda assim
perguntaria
de que lado tá o sol

na praia eu pergunto
de que lado tá o sol
vitamina D-eus que
eu nem sei se
preciso

porque o mar é uno
e o rei dos judas
multiplico

Poema escrito há mais de um ano, mas postado só agora. Em resposta ao então manifesto da translucidez, em dedicatória-comunhão, da minha quebradora de muros que sempre faz com que o sol passe pelo buraco do tijolo quebrado.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sentido


Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

— Paulo Leminski

Estando sempre em crise, dizia Zizek em mais uma de minhas leituras noturnas, você se torna indestrutível. Entre o virar de uma página e outra antes de dormir, a indagação era cada vez mais forte: o que escolher quando sair de casa: o par de asas ou a camisa de força? No aforismo seguinte, perdi-me na impossibilidade. Ora, se é preciso entender a lógica da dor, por que não começar sufocando a própria?
Os sentidos, passo-a-passo:

Primeiro: pego um pedaço de pano, a fim de fazer uma espécie de torniquete. Coloco-o em volta do peito e, entre o tecido e o coração, uma pedra de gelo retirada do copo de uísque.

Só se vê bem com o coração, lembra-me a menina leitora de oito anos que fui. Tenho propriedade suficiente para discordar disso hoje, embasamentos teóricos de gente importantíssima que ganha dinheiro só pra falar, veja bem. Mas não, preciso testar.

Segundo: alcanço um velho tampão de pirata, acessório provavelmente adquirido em mais uma dessas feiras inúteis que insisto em frequentar. Posiciono-o em cima do olho esquerdo.

Perco-me em mais uma página passada, que não me ajudou em nada. As sensações são uma mentira, lembrei-me da leitura anterior à corrente. Vivência simples, instantânea, permeada por armadilhas de equívocos incessantes. Minha tática é simples: sentir muito, até não sentir nada. Seria essa, porém, a forma mais absoluta de sentir? Preciso testar.

Terceiro: pego o copo de uísque e sinto-o por entre meus dedos. Com as duas mãos, arremesso-o de um lado para o outro.

Lembro-me do dia em que cortei todos os meus dedos ralando algumas cenouras para o jantar. Não foi bonito. O sangue escorria por entre os legumes crus depositados na pia e vazava até atingir o cano. Hoje acordei com a cara amassada. Pensei: seria isso o que chamam tato? Não sei, mas preciso tentar.

Quarto: tiro a casquinha do machucado no pulso; o sangue começa a escorrer, observo as gotas dançarem por cima de minha pele.

Interrompida por uma abrupta pausa no livro, que dava espaço para uma citação de mais um autor desconhecido, os sentidos voltam a me confundir. Até agora, nada resolvido. O som lá fora é um tilintar de freios bruscos, aceleração e alarmes. Achar que a noite é feita pra dormir só foi verdade até a invenção da luz elétrica. A noite é feita pra pensar, ou não pensar, conforme for o caso. O vento também fala: quem você está procurando? Só pode ser um perdido.

Quinto: atormentada, tapo os ouvidos com algodão e, ao mesmo tempo em que fecho os olhos, nada perpassa meus pensamentos. A leitura continua apesar dos percalços limitadores de sensações. Sinto o cheiro dos legumes queimando no fogão, mas não consigo mais me mover. Tento, em vão, lamber o sangue que ainda resta em meu pulso, mas qualquer movimento seria, agora, fatal. Permaneço imóvel, limitada: eu já não sinto nada. Os artifícios sufocadores das sensações começam a fazer cócegas.

Sexto: o gelo já está derretido... Corto o torniquete... Tiro o tapa olho... Tiro os algodões do ouvido... Limpo o sangue no braço...

Sem ti
Sentido
Sentir dor
Sem ti, dor

Levanto-me. É preciso desligar o fogo; é preciso, também, não morrer. Retorno ao quarto. Coloco Zizek em cima do criado mudo, abro Cioran para, em instantes, pegar no sono. Começo bem: “o limite de cada dor é uma dor maior”. Paro de ler. Vejo todos os objetos sufocantes jogados no chão do quarto. Eu mesma estou, também, bem próxima ao chão. Meus olhos vacilam e espiam mais uma costura de palavras no tecido: “no edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça”. E nem nas sensações, Cioran! Você sequer escreve sobre isso? Não há outra saída, é preciso seguir seu conselho. Durmo. E “que belo travesseiro é o caos”...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Kuro

Caí numa gank. Não consigo sair dessa trap que é o que sobrou dos restos da batalha. Um FPS resolveria, mas sou muito ruim de mira: acabaria dando um tiro no pé, assim como tenho feito todos os dias. Miro o corpo no reflexo da poça de sangue: combate, defesa, conquista e suporte... Repito todos os dias até ser PWND pelas minhas próprias emoções. Não sou tanker, sou lammer: trapaço e finjo, desvio a atenção: this is fine. Na verdade, o que quero e preciso é de um healer – e rápido. Quem dera eu ser cheater; isso eu deixo pra você, pois dói o mesmo tanto que doeria se fosse eu, ainda que os enganados tenham sido nós por nós. Mas você está AFK, away from here, away from all - e não escuta ninguém. Penso, por vezes, onde essa Journey estaria me levando. Seria para o Limbo? Pois é, nunca se sabe. Mas não quero ser seu lag, não quero feedar: nem por querer, nem por ser ruim nesse jogo. Desculpe se pensou, talvez, estar jogando uma versão demo comigo – e não tiro a possibilidade de ter sido isso mesmo -, mas, ainda que inacabada, disponibilizei todas as funções que pude. My mind is glitch, our life is hype. Hoje, penso que fazer desse jogo um multiplayer é o que tenha sido o erro, mas também não consigo deixar de pensar que fomos hackeados: não porque é mais fácil pensar isso, mas porque é, muito provavelmente, o que aconteceu. Eu culpo os trolls, eu culpo os NPCs... Tenho mais frags que terabytes: vou matando quem aparece por puro prazer. Eu, nintendista; você, camper (ainda que negue); nós, random player killers. Quero pensar que achamos o savepoint mais próximo por estarmos cansados demais: aqui, sim, podemos respirar um pouco mais e ir além. Brigamos: me dá a manete, me dá o controle, aperta o salvar, presta atenção na tela! Que nome dar pra isso, afinal? Esse PvP parece não sair mais do lugar. Dou start de novo, mas hoje em dia não tem mais password mágico pra voltar exatamente pro lugar onde estávamos; não tem como sair sem salvar pra, quem sabe, ignorar os erros no início da 4ª fase. Ou tem? Desculpe, mas como você já sabe, sou uma péssima jogadora, e esse chefão tá difícil demais de matar. Você quitou, eu quero continuar jogando, mas parece mesmo que nenhum de nós dois vai conseguir zerar esse jogo: a vida é um game, e o nosso tá over.